03/05/2017

Avieiros, a vida no silêncio

Abrigo de avieiro, bateira debaixo do toldo.
«Na rota contraditória das suas águas, o Tejo foi depondo e levando, levando e repondo areias junto do valado real da Lezíria Grande. Areias e terras doutras margens por onde passa. Quando o Tejo passa, algo acontece sempre, porque um rio tem as suas glórias e os seus dramas. Como os homens. Um rio vive, respira, trabalha, constrói e destrói. Também os homens. Mas os homens amam e apaixonam-se. Por belas coisas, às vezes; por coisas mesquinhas, outras tantas. A paixão é o tudo e o nada dos homens. Odienta ou amorosa, a paixão empolga-o, porque nem só o amor sublima o homem. Também na luta feroz ele se ultrapassa. A sobrevivência, por exemplo, é sempre uma luta feroz, mesmo em silêncio. Ou será ainda maior quando vive no silêncio.Um rio tem as suas glórias e os seus dramas, mas não se apaixona. O Tejo não pensa - age. Age ao sabor das circunstâncias. Age e constrói; age e destrói. Como o homem. Mas o homem pensa e conhece a dúvida.»

Alves Redol in "Avieiros" (1942) 

17/04/2017

Da memória

Ceifeiras na Lezíria
Da memória que se esquece ou da história que se apaga, surgem vozes que reclamam um regresso ao passado.


«Mas a ceifa corre lenta. Dolorosa e lenta.
E os capatazes bramam.
- Eh, gente!... Vá de animar essas mãos, que isto assim vai de enterro. Porrada pequena!...
- Eh, Ti Maria do Rosário!...
Aquela velha ficara para trás a cortar o espaço com a foice, e não via nem ouvia.
Imaginava que nunca cortara arroz em toda a sua vida com mais frenesi - nem nos seus tempos de moça.
O capataz saltou ao canteiro e sacudiu-a. Ela volveu os olhos e o Manel Boa-Fé sentiu-lhe o bafo quente da boca.
- Então, Ti Maria do Rosário?!...
-Hum?!...
- Sente-se doente?!... Vá um quartel para o barracão...
O corpo da velha sacode-se num estremecimento de pânico quando o capataz lhe fala em descansar.
Nem para ela nem para os companheiros a ceifa pode parar - a ceifa é o pão.
- Eu, homem?!...
- Pois!... Ficou-se cá atrás... Ainda consegue andar?
A velha vê os camaradas lá mais adiante, ora voltados à seara, ora voltados à resteva, naqueles movimentos que à distância parecem absurdos.
O cérebro diz-lhe que deve ir para juntos deles, e depressa, mas as pernas já não obedecem ao seu mando. O capataz segura-lhe os braços magros e tira-lhe a foice.
- Isso não, Manel!... Isso não!... - clama a Ti Maria do Rosário num desespero.
O corpo treme-lhe, os olhos gotejam. Levanta as mãos numa súplica, não percebe o que faz e depois luta com o homem, desesperada.
- Ó Manel!... A foice... dá-me a foice!...
A ceifa não pode parar - a ceifa é o pão.
Os companheiros continuam lá à frente, cada vez mais longe, a derrubar espigas e a amontoar gavelas.
- Auga!... Auga!...
De ceifeiro em ceifeiro, os três gaibéus oferecem água salobra e requentada que não mata a sede. Mas eles deixam-na escorrer pelo queixo e a água ensopa-lhes a camisa suada.
A figura da Ti Maria do Rosário, dobrada e trémula, torna-lhes mais penoso o trabalho. Cada um conhece nela o futuro que lhes baterá à porta, um dia. O futuro atabafa-lhes o peito. mais do que o ar ardente que queima os pulmões.
- Ó Manel... A foice... Dá-me a foice!...»

Alves Redol, em Gaibéus (1939), fez aquilo que está ao alcance de poucos: escreveu, nas palavras do próprio, «um romance antiassunto», um «documentário humano», sem nunca deixar de relatar a realidade, onde domina o «trabalho produtivo, a exploração descarnada do homem pelo homem, tomados os seus aspectos mais crus, na lâmina viva do dia-a-dia».
Hoje, numa época em que sistematicamente se misturam a ficção e a história criando uma névoa que torna difícil destrinçar a realidade da ficção, onde não se procura distinguir a ilusão do facto, importa não esquecer o passado, nem que seja apenas para evitar os mesmos erros no futuro.

09/04/2017

Alves Redol

Destaca-se em Portugal, frequentemente, a existência, passada e presente, de grandes autores literários. De grandes escritores. Enchemos o peito por ter, nessa área, um autor distinguido com um prémio Nobel. Muitas vezes ficamos embebecidos com ditos "escritores" de citações em redes sociais ou de livros cheios de nada. A moda, cada vez mais, dita o que lemos.
Alves Redol, fonte: Instituto Camões



... e são demasiadas as vezes que ignoramos os melhores.

«Lá que tu sejas burro, é uma coisa; que o Zé seja uma parelha de bestas é outra. Agora que vocês me obriguem a ser vosso parente, é que já não me parece certo.»
Alves Redol in "A Barca dos Sete Lemes"


19/03/2017

Metaskills

Livro Metaskills

«... Many of our policymakers believe if we just double down on testing standards and push harder on STEM subjects - science, technology, engeneering, mathematics - we'll revive the economy and compete better with countries that are taking our jobs. This is not a strategic direction for any developed country. The world doesn't want human robots. It wants creative people with exceptional imagination and vision - and standardized testing won't get us there.»

Marty Neumeier, in "Metaskills - five talents for the robotic age"

07/01/2017

Mário Soares 1924-2017

«- Para terminar, permita que lhe faça uma pergunta de ordem pessoal. O Dr. Mário Soares é conhecido, desde estudante, como oposicionista. Nunca ocultou as suas ideias e isso tem-lhe acarretado alguns dissabores. Antes de deportado esteve preso várias vezes. Essa experiência dolorosa não lhe trouxe ressentimento, uma certa amargura à vida? Por outras palavras: acha que valeu a pena?

- Sem sombra de dúvida! O problema, de resto, nunca se me pôs nesses termos. A minha actuação política oposicionista, que se vem exercendo há cerca de vinte e cinco anos - sempre na legalidade, embora sujeita às vicissitudes conhecidas! -  resultou de imperativos morais ou, se quiser, de consciência. Sendo psicologicamente como sou, não poderia ter agido de outra forma. As prisões e a deportação considero-as como uma espécie de acidentes de viação. Foram muito desagradáveis, claramente, mas passaram sem deixar marcas visíveis. Aliás devo dizer, em abono da verdade, que foram muito menos graves do que os que sofreram - e sofrem! - tantos outros portugueses, altos exemplos cívicos, pelo desinteresse pessoal, pelo idealismo, pelo espírito de patriótica abnegação! Quanto a ressentimento, não sinto nenhum - em relação a ninguém. Para mim, o que conta é o presente e, principalmente, o futuro. O passado só interessa como matéria de experiência humana e de reflexão. Ora, nesse aspecto, o que lhe posso dizer é que a minha vida não tem sido monótona. Não me sinto, pois, com razões especiais de queixa em relação à vida - antes pelo contrário!»

in "Escritos Políticos", 1969

06/10/2016

Vista curta

Não era preciso o CDS-PP escarrapachar no meio da Av. da República um enorme cartaz a fazer a ligação das (inúmeras) obras na cidade de Lisboa ao período de vivência democrática em que, em breve, as cidades mergulharão: as eleições autárquicas.
Bastaria andar nas ruas, falar com as pessoas (as que moram e as que não moram em Lisboa) para perceber que essa ideia está mais que enraizada.
A Câmara Municipal de Lisboa decidiu transformar a cidade num estaleiro de obras. Até as vias que poderiam ser alternativas às que se encontram em transformação (em estrangulamento rodoviário, melhor dizendo) não escaparam. São para criar "corredores verdes" dizem. Bendita irregularidade encontrada no concurso de transformação da chamada "segunda circular" que evitou que o caos da cidade se transformasse no inferno.

Reconhecendo algum papel positivo na economia (nomeadamente no sector da construção), pode dizer-se que a avidez na transformação de Lisboa foi tanta que, em algumas freguesias, as obras que seguiram os planos da CML vão ter que ser agora destruídas, em parte, para fazer respeitar os planos anteriormente delineados pelas Juntas de Freguesia e que, inclusivamente, já haviam sido aprovados. Na origem desta situação estarão transformações alegadamente levadas a cabo de forma cega pela CML, seguindo o boneco de algum arquitecto paisagista que, digo eu, nem deve conhecer bem a zona, que dificultam, principalmente, a passagem de veículos essenciais à vida da cidade: carros de recolha de lixo e até mesmo carros de bombeiros, se necessários.
Num local onde o estacionamento de moradores (eleitores!) já era bastante complicado, encontram-se agora largos passeios (venham de lá essas esplanadas!) e o espaço para estacionamento reduziu, sensivelmente, para 2 terços.

Mas vamos continuar a acreditar que Lisboa é uma cidade que se quer virar para o futuro e para o turismo. Uma cidade de bem com o ambiente. Ambiente que beneficiará, com certeza, com a redução das emissões de dióxido de carbono. E essa redução ocorrerá porque se criam as condições necessárias para reduzir o número de viaturas na cidade: taxas para veículos antigos; parquímetros a nascer como se fossem cogumelos; vias de circulação rodoviária que reduzem para cerca de metade...
Mas toda esta estratégia da cidade poderia funcionar, e todos os corredores verdes, pedonais e ciclovias que estão a ser construídos poderiam se utilizados, se:

  • existisse uma verdadeira rede de transportes públicos - são inacreditáveis os tempos de espera entre autocarros (chega às meias horas) e entre carruagens do 'metro' de Lisboa (muitas vezes mais de 10 minutos), constantes "perturbações" (todos os dias!) na circulação do 'metro' de Lisboa, pessoas amontoadas em autocarros e carruagens do 'metro' (tanto nas linhas com 6 carruagens como nas linhas que só colocam 3 carruagens), isto quando conseguem entrar e não são obrigadas a esperar pelo próximo autocarro ou 'metro';
  • para quem não mora em Lisboa, existissem espaços para estacionamento alargados à entrada da cidade com ligação à pseudo-rede de transportes públicos;
  • Lisboa não fosse cada vez mais uma cidade de "trabalho" e menos de "pessoas" - vejam a cidade aos fins-de-semana e avaliem a densidade populacional;
  • Lisboa não fosse cada vez mais uma cidade de turistas e menos de moradores.

Mas mesmo para uma cidade que se diz que quer estar virada para o turismo, parece-me bastante irónico que não exista uma única indicação em inglês nas estações do 'metro' de Lisboa (nem sequer aquela que é a mais procurada pelos turistas: EXIT) ou nas paragens dos autocarros - algo impensável nas capitais europeias!

Não deixa de ser também irónico desta cidade que se diz virada para o turismo, obrigar há meses (quase um ano!!) os seu visitantes a subir e descer escadas em algumas estações do metropolitano com malas "às costas" porque as suas escadas mecânicas se encontram paradas (algumas vezes nos dois sentidos) em resultado de avaria - e neste ponto vou esquecer que este meio de transporte também é utilizado por pessoas com mobilidade reduzida e fingir que o problema é só para os turistas! Vou também esquecer que já vi pessoas idosas feridas, no chão, em resultado de quedas nas longas escadas que foram obrigadas a descer!

Termino como comecei: não era preciso algumas forças políticas fazerem a ligação entre obras e eleições. Bastaria sair à rua e conversar com as pessoas, com quem mora em Lisboa e com quem lá trabalha, para perceber que é com base no impacto que essas obras estão a ter que o julgamento será feito. E pelo que ouço, não é positivo.
Seria uma coisa simples e, muito provavelmente, poderia evitar algumas surpresas futuras.

Também na política não pode haver vistas curtas.


03/07/2016

Apenas Camilo

Não serás esquecido.

Camilo Venâncio Oliveira
1924 - 2016

Foto: DN/Global Imagens

24/06/2016

23 de Junho de 2016, uma data para a história


... da União Europeia, da Europa, do Mundo.


«- Quando o Telefone Toca boa noite. Qual é frase?
- A frase é "Com uma UE como esta, o ambiente já não é de festa".
- Está correcta, e o que é que vamos ouvir?
- Queria ouvir a "Um Grande, Grande Amor " do José Cid, para dedicar à União Europeia com um grande beijinho do Reino Unido!»


 


Os resultados do referendo no Reino (de)Unido podem ser consultados aqui: http://www.theguardian.com/politics/ng-interactive/2016/jun/23/eu-referendum-live-results-and-analysis

03/06/2016

Livro: A falácia do empreendedorismo

Apesar de Adriano Campos e José Soeiro, os autores deste livro, se apresentarem como sociólogos, e académicos (o primeiro doutorando e o segundo doutorado), a julgar pelo título poderíamos entender, como leitores, que este livro se trata de um trabalho de economia dada a assumpção desta disciplina (1) com a palavra da moda: "empreendedorismo". Na verdade, entendo, trata-se de um escrito político e marcadamente ideológico (neste caso à esquerda). E pode assumir-se essa marca ideológica porque o "empreendedorismo" é também ele um movimento (expressão minha) ideológico (neste caso, visto como um movimento liberal, à direita). Ele tem impacto social tremendo, seja ao nível da inclusão, da educação, das relações laborais e financeiras.

Mas independentemente da carga ideológica que este trabalho possa acarretar para quem o lê (mais ou menos acentuada, dependendo da posição em que o leitor se situe no espectro político), ele cumpre o seu objectivo primário: expor alguns dos mitos ligados ao empreendedorismo e expor alguns dos seus efeitos nefastos.

N'«A falácia do empreendedorismo» é possível encontrar uma clara relação desta visão liberal, assumindo o risco da expressão, e da sua evangelização como solução para muitos dos problemas sociais, como o desemprego, ou como veículo para alcançar níveis de bem ou estatuto social superiores, com:

  • a perda das relações laborais e deterioração das condições de trabalho (precariedade);
  • a evolução (aumento) do desemprego, a perca de direitos e protecção social, e avesso à protecção laboral;
  • a discriminação no acesso a incentivos e apoios ao "empreendedorismo" - nomeadamente o caso português onde esta discriminação é feita ao nível académico e etário;
  • a diferenciação (pela negativa) e discriminação na capacidade de acesso a fontes de financiamento para ideias inovadoras;
  • a durabilidade dos projectos resultantes destas ideias (quando financiadas);
  • a visão individualista e egocêntrica implícita ao movimento "empreendedor";
... entre outras.


Mas para além destas relações que o livro tenta evidenciar, e que ao leitor mais atento possa parecer como uma inversão de toda uma lógica evolutiva e construída durante séculos (e vejam-se, por exemplo, os paralelismos que se podem, eventualmente, estabelecer entre o tão aclamado "empreendedorismo" do século XXI e aquele que foi considerado o "empreendedorismo" proporcionado pela Revolução Industrial com início no século XVIII), podem ainda encontrar-se alguns paradoxos entre a realidade e a ilusão do "empreendedorismo".

No momento em que começam a surgir vozes que defendem que não são os melhores alunos que têm as ideias mais inovadoras e passíveis de maior sucesso, estabelecem-se critérios de acesso a apoios e incentivos que passam pelos níveis académicos dos putativos "empreendedores"?

Como encarar a visão do movimento "empreendedor" como a solução para as crises (financeiras e sociais, maioritariamente provocadas pela liberalização e desregulação dos mercados e das relações) em que mergulharam (e por lá permanecem mergulhados) os países e sociedades consideradas mais desenvolvidas quando é nos países ou sociedade menos desenvolvidas que encontramos a proliferação de "empreendedores" e trabalhadores por conta própria e nas quais não se perspectiva, com isso, um fortalecimento das relações e protecção laboral ou social, nem sequer um aumento do bem-estar e desenvolvimento (diferente de "crescimento") económico? (2)

E estas são só algumas das perguntas que, ao ler este livro, um leitor mais crítico poderá colocar.
Definitivamente, e uma vez mais, independentemente da visão e percepção ideológica de cada um sobre o tema, este é um trabalho que merece ser lido. 


(1) Prefiro o uso de "disciplina" quando me refiro a Economia em vez de "ciência". Esta preferência acompanha a ideia expressa, e muito bem explicada, por Ha-Joon Chang em «Economics: The User's Guide»: "Economics is a political argument. It is not - and can never be - a science."

(2) Ver «Economics: The User's Guide» ou «23 Things They Don't Tell You About Capitalism» de Ha-Joon Chang (http://hajoonchang.net/). Ver ainda «The Determinants of Entrepreneurship at the Country Level: A Panel Data Approach» de Gonçalo Brás e Elias Soukiazis (disponível em http://www.uc.pt/feuc/gemf/working_papers/pdf/2015/gemf_2015-14)



Sinopse:

Empreendedorismo. Saída para a crise de emprego? Nos últimos anos, o empreendedorismo tem-se apresentado como a saída para a crise do emprego. Multiplicaram-se programas públicos de apoio e promoção do empreendedorismo. O tema entrou nos currículos de todos os níveis de ensino, havendo até workshops de «empreendedorismo para bebés». O «espírito do empreendedorismo» foi acolhido nas políticas sociais e desenvolveu-se uma rede de instituições, plataformas e encontros destinados a disseminá-lo. Neste livro, dá-se conta deste processo, dos mitos que lhe estão associados e dos resultados concretos alcançados. Sabia que a totalidade das medidas de apoio ao empreendedorismo, nas quais foram investidas centenas de milhões de euros, chegaram apenas a 1% dos desempregados oficialmente inscritos? Sabia que os países onde há taxas mais elevadas de autoemprego não são os países com economias mais inovadoras, mas sim onde há mais pobreza, como o Vietname ou o Bangladesh? Sabia que a herança, e não o mérito e o esforço individual, tem um peso cada vez maior na acumulação de riqueza na nossa sociedade, ao contrário do que sugere o discurso do empreendedorismo? De Steve Jobs a Oprah Winfrey, de Miguel Gonçalves ao Shark Tank, aqui encontrará as histórias de encantar do empreendedorismo. Mas também o outro lado desta narrativa. Não estarão a vender-nos uma falácia?

30/03/2016

Jornalismo circense

Aquilo que deveria ser a notícia sobre um acontecimento grave tornou-se numa amostra do crescente jornalismo circense em Portugal.
Mas contrariamente à coragem demonstrada por trapezistas ou domadores de feras, à destreza e agilidade de malabaristas, ou subtiliza de encantadoras de serpentes ou contorcionistas, aquilo que a comunicação social portuguesa (ou uma boa parte dela, a mais visível, pelo menos) mostrou sobre o grave acontecimento na Ameixoeira, foi a descoordenação motora e verbal dos palhaços, o ridículo e a ignorância dos bobos e a racionalidade de um equídeo ou dum paquiderme cheio de lantejoulas.

Aquilo que simplesmente podia ter sido resumido como:
«No bairro da Ameixoeira [o onde] ocorreu uma troca de tiros [o como] entre famílias, alegadamente rivais, que obrigou à intervenção policial e da qual resultaram cinco feridos, três dos quais polícias da PSP [o quê]. As causas da ocorrência ainda estão por apurar [o porquê].»
foi transformado num triste espectáculo (televisivo) de sucessivos e contínuos "directos", cheios de contradições, num exercício de especulação, suposições e adivinhação - ora se falavam em mortos, ora se falavam em feridos, ora se falava "num casal de civis" ou se diziam "mulheres feridas". Procuraram-se entrevistas junto de moradores que, quando não respondiam "não moro cá no bairro, só vim ver o que se passava, sou do Lumiar", conseguiram testemunhos que diziam uma coisa e logo o seu contrário. Filmaram-se pessoas que pediam para não ser mostradas ou que não queriam falar - a uma dessas pessoas, às quatro perguntas feitas por uma jornalista - sim, quatro insistências! - a resposta foi sempre a mesma: "não quero dizer nada".

A acompanhar o pouco ou nada que se via nas imagens em directo, ouviam-se entusiasmados jornalistas (?!) falar em rusgas em prédios que os surpreendiam porque "os polícias tocaram às campainhas" para entrarem nos prédios à procura de pessoas - havia  uma profissional que repetidamente se referia à presença duma "polícia musculada", o que, pela insistência (e quase inexistência nas imagens) me deixou na dúvida se haveriam agentes da UEP a rachar ou a partir cabeças ou se se tratava de algum fetiche.
A um dos moradores que explicou que havia aberto a porta da sua casa à polícia para que estes entrassem, a preocupação da jornalista (!?) era a de saber se a porta teria sido arrombada ou a entrada forçada. Uma inglória busca por sangue, suor e lágrimas - ou qualquer discurso de ódio - que terminou com esse morador a dizer-lhe "minha senhora, não me leve a mal, eu só posso dizer-lhe o que sei. Não lhe vou dizer o que não sei, está bem?".

Mas enquanto o circo e o espectáculo do ridículo já estava armado na Ameixoeira, outra tenda circense se levantava à porta do Hospital de Santa Maria. Ali, jornalistas (!?) mostravam o seu constante desagrado por terem sido deixados do lado de fora "enquanto as famílias podiam entrar mas ficavam no relvado, inclusivamente com crianças e bebés de colo". Entanto bradavam a sua desgraça por não poderem andar a passarinhar pelo hospital dentro a filmar tudo e todos, mesmo aqueles que não quisessem ser filmados ou que nada tinham a ver com a situação, as imagens mostravam as "várias famílias" ao longe e as crianças... por vezes a correr e a brincar (como só as crianças têm a capacidade de fazer, mesmo em momentos duros e de grande tensão!).
Entrava-se em directo com introduções do género "um familiar não quis dar a cara mas disse-nos que uma das vítimas foi atingida pela polícia" mas quando a esse familiar se perguntou "como sabe que foi a polícia?" a resposta foi "disseram-me umas pessoas lá daquele bairro".

Mas se poderíamos julgar que a característica circense é exclusiva do imediatismo das televisões, repare-se na imprensa escrita.
A fome desta comunicação social portuguesa por algo catastrófico e dramático é tanta que um jornal, sobre os cinco feridos (três dos quais já tiveram alta e dois permanecem internados mas em situação estável), faz uma chamada de capa que contraria toda e qualquer regra e código jornalístico: «Mulher morta e três polícias feridos. Tiroteio na Ameixoeira fez ainda mais dois feridos graves.»


Mas poderíamos dizer que tudo isto que, em minha opinião, contribui para colocar todos no mesmo saco da incompetência - os maus e os bons jornalistas - era o resultado de se entregarem microfones e câmaras a jovens jornalistas/estagiários mal preparados e pouco familiarizados com as regras jornalísticas e o código deontológico, mas, infelizmente, neste caso viram-se novos e "velhos".
Poderíamos ainda dizer que tudo isto se havia passado naquilo a que chamam "Correio da Manhã" - pasquim e canal de tv -, mas, infelizmente, neste caso foi também na SIC/SIC Notícias, TVI/TVI24 (e em menor escala na RTP1/RTP3), e o jornal em questão é o "jornal i".
Poderíamos, por fim, dizer que tudo isto se tratou dum circo (no seu sentido mais pejorativo) mediático isolado, mas, infelizmente, está a tornar-se prática comum.
E esta é a prática "Correio da Manhã" que, parece, está a transformar-se numa escola da comunicação social em Portugal.




01/02/2016

Livro: The Glass Cage

The Glass Cage: How our computers are changing us, de Nicholas Carr, não deve ser entendido como um livro "anti-tecnologia" ou um manifesto contra o uso, cada vez maior, das Tecnologias de Informação e Comunicação no nosso dia-a-dia. The Glass Cage traz à luz vários trabalhos que pretendem mostrar o efeito, nem sempre benéfico, das tecnologias.

É incontestável que as tecnologias estão cada vez mais enraizadas na vida de todos nós, alterando processos e relações sociais. Mas se é compreendido que estas acarretam alguns benefícios sociais e de bem-estar, não são suficiente e devidamente encarados os aspectos menos positivos da sua dependência, em especial os resultantes da automatização.

Na óptica de Nicholas Carr, e dos autores cujos trabalhos são citados, através da automatização de processos, sejam eles fabris, de serviços ou mesmo de apoio à tomada de decisão (selecção de informação decorrentes de algoritmos e/ou selecção ou construção de padrões), estão a criar-se condições para um distanciamento do Homem em relação ao Conhecimento. Chama-nos a atenção que a partir do momento em que o Homem assume o papel apenas de controlador da tecnologia - onde apenas tem que verificar ou controlar o bom funcionamento do processo automatizado - deixa de desenvolver ou possuir uma curiosidade sobre o próprio processo: o seu porquê e o como. Estes cenários empíricos, que indiciam uma espécie de retrocesso civilizacional na aquisição de competências, assentam na tónica de que esta aquisição, ao longo de vários séculos - ou mesmo milénios -, decorre da capacidade do ser humano aprender através da execução e superação de desafios, isto é, a tentativa e falha - learn by doing.

«Automation severs ends from means. It makes getting what we want easier, but it distances us from the work ok knowing. As we transform ourselves into creatures of the screen, we face the same existential question that the Shushwap confronted: Does our essence still lie in what we know, or are we now content to be defined by what we want?»

O livro de Nicholas Carr, e os estudos que nele são mencionados, não advogam que devamos rejeitar liminarmente a tecnologia e o seu desenvolvimento. Apenas nos alerta para que a adopção das tecnologias seja cautelosamente pensada e avaliada por todos os prismas. A sua implementação e apropriação deve ser analisada em termos de facilitação e bem-estar, mas não deve ser descurado o seu verdadeiro e mais profundo impacto social.


Sinopse:

«In The Glass Cage: How Our Computers Are Changing Us, his widely praised follow-up to the Pulitzer Prize-nominated The Shallows, bestselling author Nicholas Carr explores how our ever growing dependency on computers, apps, and robotics is reshaping our jobs, talents, and lives.
Digging behind the headlines about artificial intelligence and self-driving cars, digitized medicine and workplace robots, Carr explores the hidden costs of granting software dominion over our work and our leisure. Drawing on studies that underscore how tightly our sense of happiness and personal fulfillment is tied to performing skilled work in the real world, he reveals something we already suspect: shifting our attention to computer screens can leave us disengaged and discontented. Our lives may be easier inside the glass cage, but something essential is missing.

From doctors’ offices to the cockpits of passenger jets, from the frozen hunting grounds of Inuit tribes to the sterile landscapes of GPS maps, The Glass Cage explores the impact of automation from a deeply human perspective. Mixing history and philosophy, poetry and science, the book culminates in a moving meditation on how we can use technology to expand the human experience rather than narrow it.»

28/01/2016

Livro: Politica e Entretenimento

José Santana Pereira neste ensaio, "Política e Entretenimento", reúne um conjunto de teorias, por vezes antagónicas, sobre o impacto nos cidadãos das relações entre a política e a comunicação social, nomeadamente, com a utilização da política em programas de entretenimento.
São diversos os autores que defendem a existência duma aproximação e maior esclarecimento dos cidadãos em relação a temas políticos através dos programas de entretenimento - concursos, reality shows ou de humor - bem como aqueles que defendem o seu contrário.

Certo da existência desta relação entre política e entretenimento, e neste trabalho ficam bem claras as evidências históricas de políticos que se tornaram "celebridades" do audio-visual, bem como pessoas ligadas ao "mundo do espectáculo" que se transformaram em políticos e poderosos lideres, não é consensual o seu impacto nos cidadãos, nos eleitores e nas próprias sociedades ao nível político.

Este é um ensaio interessante de se ler e que pode contribuir para uma discussão e reflexão premente na sociedade actual: que poder exerce o entretenimento e a comunicação social na política dos países e, consequentemente, que influência tem nas decisões com impacto no dia-a-dia dos cidadão?


Sinopse:

«A política é divertida? Em que medida é que os temas e os protagonistas políticos foram adoptados ou apropriados pelos programas de televisão não informativos, com que objectivos e com que consequências? Como e porque é que os líderes partidários se tornaram personalidades com características de celebridades do mundo do espectáculo, e quais as consequências deste fenómeno? Até que ponto é que a dependência dos meios de comunicação social tradicionais como fonte primordial de informação política tem vindo a transformar os cidadãos em meros espectadores? Este ensaio tem como propósito debater estas e outras questões relativas à relação, cada vez mais íntima, entre as esferas da política e do entretenimento, com o propósito de estimular o debate e o pensamento crítico a respeito deste fenómeno incontornável nas sociedades democráticas.»

26/01/2016

Mi casa es su casa

E é isto, um resumo do novo Portugal: quintas, novelas e Marcelo (... vá, e bola também!).

Venha de lá, então, um reality show a partir de Belém para entreter a malta, que a malta quer-se ocupada: "E se houvesse uma TV Belém para o antigo comentador?"

... Está a parecer-me que a comunicação social vai querer, agora, começar a retirar do "Presidente" os seus dividendos depois de tantos anos de apoio e suporte ao "Comentador". Afinal o senhor já cá anda há muitos anos...



Capa revista "TV 7 dias", 26.01.2016 - dois dias depois das eleições presidenciais

25/01/2016

Acreditar na Democracia

Portugal (ou uma pequena parte dele!) votou.

Os resultados estão apurados. O exercício democrático cumpriu-se sem problemas de maior (salvo um boicote numa freguesia e o impedimento de alguns cidadãos no estrangeiro exercerem o seu direito) e com respeito cívico, e isso é sempre de saudar.

Pela primeira vez na sua história, Portugal contou com uma dezena de candidatos a Presidente da República. Uns mais à séria, outros menos. Uns mais políticos, outros nem tanto. Uns mais populistas e demagógicos, outros mais "terra-a-terra" com a realidade e as necessidades dos portugueses.
Tudo isto mostra um aparente amadurecimento da Democracia em Portugal - um amadurecimento que, ainda assim, não dá plenas garantias de consolidação, especialmente pelo crescente e galopante alheamento dos cidadãos em relação à política e àquilo que os governa (uma tendência que se iniciou há muitos anos e cujas razões não vou, agora, discutir).

A partir de 9 de Março de 2016 teremos um novo Presidente da República. Sobre o que dele se espera, ou sobre a sua imprevisibilidade, muitos já falaram. Sobre o que eu acredito que será Marcelo Rebelo de Sousa no exercício do cargo, também já o disse e escrevi. Citando alguém com quem discordo em praticamente tudo, espero mesmo, mas muito mesmo, que ele me "surpreenda".

Mas, não obstante aquelas que sãos as diferenças ideológicas e idiossincráticas de cada um, continuo a gostar e a acreditar piamente na Democracia. Pois com as decisões que nela se tomam, vêm também as consequências.

A luta faz-se todos os dias.

22/01/2016

Portugal precisa de virar a página

Já o disse antes, desde a primeira hora, e reitero-o ainda com maior convicção: Sampaio da Nóvoa, de todos os candidatos a Presidente da República, é aquele mais capaz e com o melhor perfil para responder às exigências que se adivinham no exercício do cargo nos próximos anos.

Cavaco Silva tem todas as condições para ficar na história de Portugal como aquele que pior exerceu o cargo de Presidente da República, a par de Presidentes fantoches do antigo regime. Mas esta entrada negra na história está seriamente ameaçada pelo candidato Marcelo Rebelo de Sousa.

Cavaco Silva foi um muito mau Presidente da República, mas Marcelo, a ser eleito, por tudo aquilo que é e tem-no demonstrado ao longo de mais de 41 anos - contador de estórias, criador de factos através da mentira, incoerente nas suas posições e com uma séria tendência para se desresponsabilizar culpando os outros (os tais "barões do partido"), enfim, talvez como alguém da sua área política o caracterizou, um "cata-vento", será muito pior e mais perigoso politicamente. 
A Cavaco Silva conhecia-se uma linha política e uma ideologia. Fixo de ideias, no cargo sempre foi previsível. De Marcelo Rebelo de Sousa o que se conhece é que segue sempre uma linha curva volátil que se orienta conforme o momento, mesmo que esta siga o sentido contrário ao que já tenha seguido antes.

Se por muito azar a escolha (desinformada) dos portugueses recair em Marcelo Rebelo de Sousa, Portugal corre enormes e sérios riscos: democrático (no sentido da estabilidade) e social.

Portugal precisa de virar mais uma página negra da sua história. Uma página maldita com 10 anos ininterruptos.
Este é o momento certo para o fazer. Só se não quiser. E os arrependimentos, quase sempre, não servem para reconstruir aquilo que ficou despedaçado.


03/11/2015

A discussão faz-se de ideias

Quanto às presidenciais, o meu apoio é mais do que óbvio e está declarado.
Não tenho quaisquer dúvidas que é Sampaio da Nóvoa o candidato necessário para responder às exigências que se adivinham para o próximo Presidente da República.
Claro de ideias e esclarecido nas propostas, e todas elas tornadas públicas há muito tempo de forma continuada para que todos possam fazer a sua escolha informada, Sampaio da Nóvoa é a antítese daquilo que foram estes últimos 10 anos de Cavaco Silva como Presidente da República.

Mas mesmo consciente das minhas convicções e ideais, esclarecido quanto às opções e certo daquilo que quero para o futuro, nada me impede de ouvir os restantes candidatos, bem como conhecer as suas ideias e propostas. Entre uns mais conhecidos do que outros, uns "políticos" outros nem tanto, procurei, muitas vezes sem encontrar, tudo o que pudesse ser visto, lido e ouvido sobre a visão dos restantes candidatos já declarados - mais 19 para além de Nóvoa.

E foi no âmbito dessa tarefa que consultei também o site da outra candidatura, dita de esquerda, que recolhe mais atenção por parte da comunicação Social - Belém 2016, lançada a 13 de Outubro (há 22 dias, portanto).

E infelizmente, à semelhança do que sucedeu quando procurei informação sobre outros candidatos menos fotogénicos ou menos interessantes para parangonas de jornais, também neste caso continuo sem conhecer uma ideia, uma visão, uma proposta da candidata Maria de Belém. Consultando o seu site oficial de campanha, ao visitante apenas é disponibilizado um único link para os documentos necessários para a propositura da candidatura. Sem ideias públicas e expressas passíveis de serem consultadas por este meio, parece que esta candidatura pede ao visitante, a poucos meses das eleições e numa fase muito crítica para Portugal, uma "assinatura em branco".




Tendo escutado algumas das suas declarações, sobre a actualidade política, como «não gostaria de me pronunciar sobre isso» ou «não posso comentar porque não estou na posse de toda a informação que o actual Presidente da República dispõem», não gostaria de acreditar que este é o reflexo desta candidatura, da forma como foi precipitada e lançada: um enorme vazio de ideias.

Poder-se-á, no entanto, dizer que o vídeo na única página do site poderá (poderia!) ser uma ajuda ao esclarecimento do visitante e que este terá através do meio audiovisual disponível um cabal esclarecimento do que pretende ser esta candidatura a quando o hipotético exercício do cargo. Mas não!

Não sendo um conhecedor em técnicas de comunicação (embora tenha, momentaneamente estudado marketing político), o vídeo causa alguma estranheza pois salta à vista uma imitação - e mal feita, diga-se - do "O" da campanha de Obama às presidenciais dos EUA em 2012 e ainda mais o facto do movimento das linhas com as cores da bandeira nacional se deslocar para o interior do "O" (zero, neste caso) - cuidado com a semiótica: é que, aos eleitores, pode estar a ser dado um sinal de entrada para o desconhecido... 



Mas imagens à parte: ouve-se um discurso, para além de editado (estranho corte aos 9 minutos e 38), com muitos lugares comuns e mensagens inócuas, no qual se esperaria ouvir e conhecer mais. Esperar-se-ia uma apresentação clara de princípios e de compromissos.
Afinal, trata-se de uma candidatura ao cargo de Presidente da República, de alguém que «não nasceu hoje para a política», e não de uma candidatura a um cargo de auditoria de defesa nacional...!

Não basta citar a Constituição da República Portuguesa, ou falar nos feitos históricos de Portugal. Não chega apenas a apresentação de um Curriculum Vitae com os cargos e (algumas) posições ocupadas no passado - é que não se pode começar por dizer que o cargo exige independência e capacidade para estabelecer pontes para depois apresentar como evidência da sua «maturidade e visão políticas» uma carreia politico-partidária. E até aí, muito há que se lhe diga no que toca à gestão independente de situações partidárias.

Mas a cima de tudo, não chega fazer-se um discurso cheio de retórica, apresentar uma candidatura quase como um chamamento pelo bem e glória dos portugueses, para depois dizer que «o mandato é claro», que «o programa do Presidente da República é a Constituição».
Enganam-se, e enganam, aqueles que assim pensam. A discussão faz-se de ideias.


08/10/2015

Livro: Cuidar do Futuro - Os Mitos do Estado Social Português

Pedro Adão e Silva e Mariana Trigo Pereira apresentam neste livro um conjunto de evidências que ajudam a desmontar vários dos mitos que se criaram em torno do "Estado Social" em Portugal.
Ideias enraizadas na narrativa do cidadão comum, originárias, muitas vezes, na luta político-partidária, de que as prestações sociais representam uma enorme despesa para o Estado, que em Portugal a despesa com pensões é das mais elevadas da U.E., da insustentabilidade da Segurança Social ou do peso que representam as famosas "pensões milionárias" (0,1%!) e o RSI para o Estado Social, são desmistificadas neste interessantíssimo trabalho. Também nele se demonstra a importância que representa (ou representou) o Complemento Solidário para Idosos no combate à pobreza entre os seniores em Portugal.

"Cuidar do Futuro - Os Mitos do Estado Social Português", editado pela editora Clube do Autor, trata-se de um livro que contém uma mensagem que deveria ser amplamente divulgada por forma a corrigir algumas da mentiras e mitos que foram propositadamente criados e, na maior parte das vezes, inconscientemente propagados ao longo do tempo em torno do Estado Social.
É, seguramente, um livro cuja leitura se recomenda vivamente.


Sinopse:

«O Estado Social está no centro do debate político em Portugal. É urgente fazer escolhas e tomar decisões fundamentais sobre o nosso futuro.

Será justo estar a pagar tanto para as pensões dos outros?
Pode não haver dinheiro quando me reformar?
Os políticos usam a despesa social para ganhar eleições?

Numa linguagem acessível dirigida a um público não especialista ,são desmontadas algumas ideias pré-concebidas que existem em torno do Estado Social português. Sem um entendimento informado e partilhado seremos incapazes de fazer face às verdadeiras causas que impedem a sustentabilidade do Estado Social.»


28/09/2015

As sondagens valem o que valem... mas valem para quem?

Se os estudos de opinião podem ser usados para inúmeros assuntos, é inegável que é em períodos eleitorais que mais damos por eles. E há para todos os gostos.

Estando nós em período de eleições legislativas (aguardem porque a seguir virão a eleições presidenciais!) todas as semanas somos inundados de sondagens sobre intenções de voto. Se as semanais, duas ou três, não eram suficientes, então agora surgem-nos com uma novidade: sondagens diárias!
Porque não só podemos escolher o centro de sondagens pelo qual nutrimos maior simpatia, podemos também escolher o resultado que mais nos agrada. E se é esta diversidade de resultados entre estudos de opinião, alguns feitos no mesmo período sem qualquer acontecimento capaz de alterar a intenção de voto dos eleitores, que confunde (admitamos a possibilidade de tal acontecer) os cidadãos interessados, é a mesma diversidade que os descredibiliza, até àqueles tecnicamente bem feitos.

Se das estatísticas poderemos dizer que estas consistem na arte de massajar os números até eles nos dizerem o que nós queremos, o mesmo já não se deveria aplicar aos estudos de opinião dado que eles deveriam ser representativos (ou aproximar-se) da opinião dos inquiridos sobre um tema específico ou intenção destes agirem em determinada situação, extrapolando estes resultados para uma representatividade do universo pré-determinado.
Mas se o universo estudado é importante para a um estudo de opinião, então é decisivo e crítico a construção da amostra.

Mesmo sem querer entrar na análise sobre a estratificação da amostra (interessante ver alguns dados, especialmente aqueles relacionados com as faixas etárias!) ou na discussão sobre as vantagens e desvantagens na utilização de um "painel" para sondagens e barómetros, independentemente da sua frequência, decidi dispensar algum tempo a perceber a amostra da sondagem referida numa notícia da RTP de 23 de Setembro: «Coligação com vantagem de cinco pontos na sondagem diária da RTP».
Porque as fichas técnicas publicadas pelos órgãos de comunicação social são muito importantes para perceber as própria sondagens, um melhor entendimento sobre como se chegaram àqueles resultados, ou como os sustentam, só é possível com todos os dados disponíveis. Por essa razão recorri ao arquivo de documentos depositados na ERC.

Podemos ver neste caso específico que nos é dito que para o estudo foram efectuadas 891 entrevistas e que destas se calculou uma taxa de resposta de cerca de 70% (69,61%) o que, poderemos assumir, foram considerados 623 inquiridos.
Observando a restante informação, podemos constatar que destas 623 entrevistas, 10% dos inquiridos indicaram não votar (62) e 12% nem sequer sabe ainda se vai votar (75).
Ficando estes 137 inquiridos imediatamente fora das contas, restam apenas 486 inquiridos que dizem que vão votar (65%) ou que "em princípio" o farão (13%). Mas diz-nos ainda a ficha técnica que destes 486, 29% não sabem em quem votar (141) e 8% recusaram-se a dizer em quem vão votar (39).
Em suma, é-nos apresentada a notícia de uma intenção de voto sustentada numa amostra de apenas 306 inquiridos.

Sem querer julgar a boa vontade das entidades que compram estes estudos e a sua dificuldade em compreender o seu grau de sustentação, ou questionar o rigor científico das entidades que vendem estes estudos, as minhas duas dúvidas sobre estes estudos adensam-se cada vez mais:
1) afinal, a quem servem estes estudos de opinião? e
2) será que estes estudos pretendem ser eles o simples reflexo duma opinião ou transformar-se num instrumento de construção duma opinião?

... Afinal, as sondagens valem o que valem... mas valem para quem?

12/07/2015

Os Porquês da Esperança

O «entrevistado», sendo ele um cientista social, aceitará certamente que nem sempre concorde (ainda que muito poucas vezes!) com algumas das leituras que faz, especialmente no capítulo "as políticas" (afinal, é essa a maravilha da liberdade de pensamento e ideológica), mas "Os Porquês da Esperança" merece ser lido por se tratar duma conversa entre duas pessoas inteligentes que não pretende apresentar ao leitor qualquer dogma! É sim, um ponto de partida pelas ideias que deixa para discussão.
Como disse o próprio, «Mas um livro é para dizer! É para pensar além da circunstância imediata e sonhar futuros que não estão necessariamente inscritos no curso normal das coisas».

Lançado no dia 7 de Julho, é um livro que, pela forma da escrita, agarra o leitor interessado nestes temas.

Sinopse:

«QUE DESAFIOS ENFRENTA PORTUGAL?
PARA ONDE CAMINHAMOS E COM QUE ESTRATÉGIA?
É POSSÍVEL ACREDITAR NUM FUTURO MELHOR?

Um ano depois de a troika ter deixado o país, é importante perceber para onde dirigir a «nave pátria» em tempos que se esperam exigentes. Augusto Santos Silva e Paulo Magalhães fazem uma análise detalhada dos nossos recursos, das escolhas a fazer, da mudança a operar e da importância crucial de ter uma liderança competente.

QUAIS SÃO OS NOSSOS BLOQUEIOS?
TEREMOS JÁ PERDIDO DEMASIADO TEMPO?
SEREMOS MAIS DO QUE A LUSOFONIA?
PARA QUE HORIZONTES DEVE OLHAR O NOSSO PAÍS?
O QUE SE DEVE ESPERAR DE UM NOVO CICLO POLÍTICO?
UM LIVRO QUE AJUDA A COMPREENDER PORTUGAL PARA ALÉM DA ESPUMA DOS DIAS, À LUZ DA POLÍTICA, DA SOCIOLOGIA E DOS ACONTECIMENTOS QUE MARCARAM OS ÚLTIMOS ANOS.»

Matéria-Prima Edições



07/07/2015

Repost: "Thomas Piketty: Germany has never repaid"

Traduzido para o inglês e publicado por Gavin Schalliol no site Medium.com (do original em alemão) uma entrevista de leitura "obrigatória"!

«In a forceful interview with German newspaper Die Zeit, the star economist Thomas Piketty calls for a major conference on debt. Germany, in particular, should not withhold help from Greece. This interview has been translated from the original German.

Since his successful book, “Capital in the Twenty-First Century,” the Frenchman Thomas Piketty has been considered one of the most influential economists in the world. His argument for the redistribution of income and wealth launched a worldwide discussion. In a interview with Georg Blume of DIE ZEIT, he gives his clear opinions on the European debt debate.

DIE ZEIT: Should we Germans be happy that even the French government is aligned with the German dogma of austerity?

Thomas Piketty: Absolutely not. This is neither a reason for France, nor Germany, and especially not for Europe, to be happy. I am much more afraid that the conservatives, especially in Germany, are about to destroy Europe and the European idea, all because of their shocking ignorance of history.

ZEIT: But we Germans have already reckoned with our own history.

Piketty: But not when it comes to repaying debts! Germany’s past, in this respect, should be of great significance to today’s Germans. Look at the history of national debt: Great Britain, Germany, and France were all once in the situation of today’s Greece, and in fact had been far more indebted. The first lesson that we can take from the history of government debt is that we are not facing a brand new problem. There have been many ways to repay debts, and not just one, which is what Berlin and Paris would have the Greeks believe.

ZEIT: But shouldn’t they repay their debts?

Piketty: My book recounts the history of income and wealth, including that of nations. What struck me while I was writing is that Germany is really the single best example of a country that, throughout its history, has never repaid its external debt. Neither after the First nor the Second World War. However, it has frequently made other nations pay up, such as after the Franco-Prussian War of 1870, when it demanded massive reparations from France and indeed received them. The French state suffered for decades under this debt. The history of public debt is full of irony. It rarely follows our ideas of order and justice.

ZEIT: But surely we can’t draw the conclusion that we can do no better today?

Piketty: When I hear the Germans say that they maintain a very moral stance about debt and strongly believe that debts must be repaid, then I think: what a huge joke! Germany is the country that has never repaid its debts. It has no standing to lecture other nations.

ZEIT: Are you trying to depict states that don’t pay back their debts as winners?

Piketty: Germany is just such a state. But wait: history shows us two ways for an indebted state to leave delinquency. One was demonstrated by the British Empire in the 19th century after its expensive wars with Napoleon. It is the slow method that is now being recommended to Greece. The Empire repaid its debts through strict budgetary discipline. This worked, but it took an extremely long time. For over 100 years, the British gave up two to three percent of their economy to repay its debts, which was more than they spent on schools and education. That didn’t have to happen, and it shouldn’t happen today. The second method is much faster. Germany proved it in the 20th century. Essentially, it consists of three components: inflation, a special tax on private wealth, and debt relief.

ZEIT: So you’re telling us that the German Wirtschaftswunder [“economic miracle”] was based on the same kind of debt relief that we deny Greece today?

Piketty: Exactly. After the war ended in 1945, Germany’s debt amounted to over 200% of its GDP. Ten years later, little of that remained: public debt was less than 20% of GDP. Around the same time, France managed a similarly artful turnaround. We never would have managed this unbelievably fast reduction in debt through the fiscal discipline that we today recommend to Greece. Instead, both of our states employed the second method with the three components that I mentioned, including debt relief. Think about the London Debt Agreement of 1953, where 60% of German foreign debt was cancelled and its internal debts were restructured.

ZEIT: That happened because people recognized that the high reparations demanded of Germany after World War I were one of the causes of the Second World War. People wanted to forgive Germany’s sins this time!

Piketty: Nonsense! This had nothing to do with moral clarity; it was a rational political and economic decision. They correctly recognized that, after large crises that created huge debt loads, at some point people need to look toward the future. We cannot demand that new generations must pay for decades for the mistakes of their parents. The Greeks have, without a doubt, made big mistakes. Until 2009, the government in Athens forged its books. But despite this, the younger generation of Greeks carries no more responsibility for the mistakes of its elders than the younger generation of Germans did in the 1950s and 1960s. We need to look ahead. Europe was founded on debt forgiveness and investment in the future. Not on the idea of endless penance. We need to remember this.

ZEIT: The end of the Second World War was a breakdown of civilization. Europe was a killing field. Today is different.

Piketty: To deny the historical parallels to the postwar period would be wrong. Let’s think about the financial crisis of 2008/2009. This wasn’t just any crisis. It was the biggest financial crisis since 1929. So the comparison is quite valid. This is equally true for the Greek economy: between 2009 and 2015, its GDP has fallen by 25%. This is comparable to the recessions in Germany and France between 1929 and 1935.

ZEIT: Many Germans believe that the Greeks still have not recognized their mistakes and want to continue their free-spending ways.

Piketty: If we had told you Germans in the 1950s that you have not properly recognized your failures, you would still be repaying your debts. Luckily, we were more intelligent than that.

ZEIT: The German Minister of Finance, on the other hand, seems to believe that a Greek exit from the Eurozone could foster greater unity within Europe.

Piketty: If we start kicking states out, then the crisis of confidence in which the Eurozone finds itself today will only worsen. Financial markets will immediately turn on the next country. This would be the beginning of a long, drawn-out period of agony, in whose grasp we risk sacrificing Europe’s social model, its democracy, indeed its civilization on the altar of a conservative, irrational austerity policy.

ZEIT: Do you believe that we Germans aren’t generous enough?

Piketty: What are you talking about? Generous? Currently, Germany is profiting from Greece as it extends loans at comparatively high interest rates.

ZEIT: What solution would you suggest for this crisis?

Piketty: We need a conference on all of Europe’s debts, just like after World War II. A restructuring of all debt, not just in Greece but in several European countries, is inevitable. Just now, we’ve lost six months in the completely intransparent negotiations with Athens. The Eurogroup’s notion that Greece will reach a budgetary surplus of 4% of GDP and will pay back its debts within 30 to 40 years is still on the table. Allegedly, they will reach one percent surplus in 2015, then two percent in 2016, and three and a half percent in 2017. Completely ridiculous! This will never happen. Yet we keep postponing the necessary debate until the cows come home.

ZEIT: And what would happen after the major debt cuts?

Piketty: A new European institution would be required to determine the maximum allowable budget deficit in order to prevent the regrowth of debt. For example, this could be a commmittee in the European Parliament consisting of legislators from national parliaments. Budgetary decisions should not be off-limits to legislatures. To undermine European democracy, which is what Germany is doing today by insisting that states remain in penury under mechanisms that Berlin itself is muscling through, is a grievous mistake.

ZEIT: Your president, François Hollande, recently failed to criticize the fiscal pact.

Piketty: This does not improve anything. If, in past years, decisions in Europe had been reached in more democratic ways, the current austerity policy in Europe would be less strict.

ZEIT: But no political party in France is participating. National sovereignty is considered holy.

Piketty: Indeed, in Germany many more people are entertaining thoughts of reestablishing European democracy, in contrast to France with its countless believers in sovereignty. What’s more, our president still portrays himself as a prisoner of the failed 2005 referendum on a European Constitution, which failed in France. François Hollande does not understand that a lot has changed because of the financial crisis. We have to overcome our own national egoism.

ZEIT: What sort of national egoism do you see in Germany?

Piketty: I think that Germany was greatly shaped by its reunification. It was long feared that it would lead to economic stagnation. But then reunification turned out to be a great success thanks to a functioning social safety net and an intact industrial sector. Meanwhile, Germany has become so proud of its success that it dispenses lectures to all other countries. This is a little infantile. Of course, I understand how important the successful reunification was to the personal history of Chancellor Angela Merkel. But now Germany has to rethink things. Otherwise, its position on the debt crisis will be a grave danger to Europe.

ZEIT: What advice do you have for the Chancellor?

Piketty: Those who want to chase Greece out of the Eurozone today will end up on the trash heap of history. If the Chancellor wants to secure her place in the history books, just like [Helmut] Kohl did during reunification, then she must forge a solution to the Greek question, including a debt conference where we can start with a clean slate. But with renewed, much stronger fiscal discipline.»
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