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24/03/2014

Essa coisa de Globalização

Fonte da figura:
http://wheelockglobalcauses.org/education/globalization-in-developing-nations/
Ao que parece, no dia em se soube que o "risco de pobreza aumentou em Portugal para o valor mais elevado desde 2005", o mesmo dia em que, sobre salários milionários num novo banco público, o Prof Eduardo Catroga acha que está tudo bem "desde que sejam valores de acordo com os objectivos atingidos" e a Prof Teodora Cardoso insiste que os "salários de trabalhadores com poucas qualificações não podem subir muito" (curioso que o mesmo acontece e acontecerá para os trabalhadores com elevadas qualificações - os que ficam, não os que saem), o tema da "globalização" voltou a ter algum destaque como há uns anos atrás... a mesma "globalização" que serve para sustentar a "saída da zona de conforto" (aqui, aqui, e aqui) e que "a exposição de quadros portugueses qualificados no Mundo inteiro é uma mais-valia para Portugal".


Mas para melhor se perceber a diferença entre esta "globalização" e a verdadeira Globalização, não resisto a transcrever parte de um texto de Pierre Bourdieu... de 1996!

«Evoquei a "globalização": esta é um mito no sentido forte do termo, um discurso poderoso, uma "ideia-força", uma ideia que tem a carga social, que obtém crença. É a arma principal das lutas contra as garantias adquiridas do welfare state: os trabalhadores europeus, diz-se, devem rivalizar com os trabalhadores menos favorecidos do resto do mundo. São apontados assim como modelos aos trabalhadores europeus países em que o salário mínimo não existe, em que os operários trabalham 12 horas por dia em troca de um salário que varia entre 1/4 e 1/15 do salário europeu, em que não há sindicatos, em que se recorre ao trabalho infantil, etc. E é em nome de um modelo semelhante que se impõe a flexibilidade, outra palavra-chave do neoliberalismo, quer dizer o trabalho nocturno, o trabalho ao fim-de-semana, as horas de trabalho irregulares, outras tantas coisas inscritas desde toda a eternidade nos sonhos patronais. De uma maneira geral, o neoliberalismo opera o regresso sob as aparências de uma mensagem muito elegante e muito moderna às mais velhas ideias do mais velho patronato.
[...]
Insistindo na ameaça extra-europeia, esconde-se que o principal perigo é constituído pela concorrência interna dos países europeus e por aquilo a que por vezes se chama o social dumping: os países europeus com fraca protecção social, com salários baixos, podem tirar partido das suas vantagens na competição, mas arrastando para baixo os outros países, obrigados, a abandonarem as garantias sociais adquiridas, para resistirem. O que implica que, para escaparem a esta espiral, os trabalhadores dos países avançados têm interesse em associar-se aos trabalhadores dos países menos avançados, a fim de conservarem os seus direitos adquiridos e de favorecerem a sua generalização a todos os trabalhadores europeus.»

É curioso ver que, quase 20 anos depois, este é um texto com uma actualidade gritante. 

10/06/2011

Livro: A Outra Globalização


Um trabalho que aborda aquela que deveria ser a globalização paralela à económica: a cultural.
Baseia-se num triângulo de conceitos "identidade - cultura - comunicação" que estão na base duma coabitação cultural que vai mais além das redes de informação e tecnológica.
Um tema interessante e que, quando confrontado com os recentes acontecimentos relacionados com a emigração e o multi-culturalismo, pode colocar algumas questões à Europa como a conhecemos actualmente.


Sinopse:

Com a abertura das fronteiras, a televisão, a democratização das viagens e, mais recentemente, a Internet, o mundo ter-se-á transformado numa gigantesca «aldeia». Pelo menos, isto é o que pretendem fazer crer algumas indústrias da comunicação que são agora mais poderosas do que nunca: seríamos todos «cidadãos do mundo», com múltiplas ligações, capazes de assimilar as mais diversas heranças, constituindo alegremente uma espécie de cultura globalizada.
Nada mais vão do que esta pretensão cosmopolita. Para enfrentarmos um mundo cada vez mais aberto e, portanto, mais incerto, precisamos, pelo contrário, de estar confiantes na nossa identidade, preparados para nos confrontarmos com outros valores. Em suma, ter raízes. Não é por o Outro ser hoje mais acessível que ele é mais compreensível; é exactamente o contrário. Quanto mais visíveis são as nossas diferenças, mais tensões elas criam. Curiosamente, enquanto observamos à lupa a globalização económica, esquecemo-nos de pensar esta «outra globalização» da qual dependem, porém, a paz e a guerra futuras.
Em que condições, portanto, organizar a nível mundial uma coabitação de culturas?
Esta é a questão central deste livro e, para Dominique Wolton, uma das principais questões políticas dos nossos dias. Num sentido contrário às ideias admitidas, o autor avança propostas surpreendentes.
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