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03/06/2016

Livro: A falácia do empreendedorismo

Apesar de Adriano Campos e José Soeiro, os autores deste livro, se apresentarem como sociólogos, e académicos (o primeiro doutorando e o segundo doutorado), a julgar pelo título poderíamos entender, como leitores, que este livro se trata de um trabalho de economia dada a assumpção desta disciplina (1) com a palavra da moda: "empreendedorismo". Na verdade, entendo, trata-se de um escrito político e marcadamente ideológico (neste caso à esquerda). E pode assumir-se essa marca ideológica porque o "empreendedorismo" é também ele um movimento (expressão minha) ideológico (neste caso, visto como um movimento liberal, à direita). Ele tem impacto social tremendo, seja ao nível da inclusão, da educação, das relações laborais e financeiras.

Mas independentemente da carga ideológica que este trabalho possa acarretar para quem o lê (mais ou menos acentuada, dependendo da posição em que o leitor se situe no espectro político), ele cumpre o seu objectivo primário: expor alguns dos mitos ligados ao empreendedorismo e expor alguns dos seus efeitos nefastos.

N'«A falácia do empreendedorismo» é possível encontrar uma clara relação desta visão liberal, assumindo o risco da expressão, e da sua evangelização como solução para muitos dos problemas sociais, como o desemprego, ou como veículo para alcançar níveis de bem ou estatuto social superiores, com:

  • a perda das relações laborais e deterioração das condições de trabalho (precariedade);
  • a evolução (aumento) do desemprego, a perca de direitos e protecção social, e avesso à protecção laboral;
  • a discriminação no acesso a incentivos e apoios ao "empreendedorismo" - nomeadamente o caso português onde esta discriminação é feita ao nível académico e etário;
  • a diferenciação (pela negativa) e discriminação na capacidade de acesso a fontes de financiamento para ideias inovadoras;
  • a durabilidade dos projectos resultantes destas ideias (quando financiadas);
  • a visão individualista e egocêntrica implícita ao movimento "empreendedor";
... entre outras.


Mas para além destas relações que o livro tenta evidenciar, e que ao leitor mais atento possa parecer como uma inversão de toda uma lógica evolutiva e construída durante séculos (e vejam-se, por exemplo, os paralelismos que se podem, eventualmente, estabelecer entre o tão aclamado "empreendedorismo" do século XXI e aquele que foi considerado o "empreendedorismo" proporcionado pela Revolução Industrial com início no século XVIII), podem ainda encontrar-se alguns paradoxos entre a realidade e a ilusão do "empreendedorismo".

No momento em que começam a surgir vozes que defendem que não são os melhores alunos que têm as ideias mais inovadoras e passíveis de maior sucesso, estabelecem-se critérios de acesso a apoios e incentivos que passam pelos níveis académicos dos putativos "empreendedores"?

Como encarar a visão do movimento "empreendedor" como a solução para as crises (financeiras e sociais, maioritariamente provocadas pela liberalização e desregulação dos mercados e das relações) em que mergulharam (e por lá permanecem mergulhados) os países e sociedades consideradas mais desenvolvidas quando é nos países ou sociedade menos desenvolvidas que encontramos a proliferação de "empreendedores" e trabalhadores por conta própria e nas quais não se perspectiva, com isso, um fortalecimento das relações e protecção laboral ou social, nem sequer um aumento do bem-estar e desenvolvimento (diferente de "crescimento") económico? (2)

E estas são só algumas das perguntas que, ao ler este livro, um leitor mais crítico poderá colocar.
Definitivamente, e uma vez mais, independentemente da visão e percepção ideológica de cada um sobre o tema, este é um trabalho que merece ser lido. 


(1) Prefiro o uso de "disciplina" quando me refiro a Economia em vez de "ciência". Esta preferência acompanha a ideia expressa, e muito bem explicada, por Ha-Joon Chang em «Economics: The User's Guide»: "Economics is a political argument. It is not - and can never be - a science."

(2) Ver «Economics: The User's Guide» ou «23 Things They Don't Tell You About Capitalism» de Ha-Joon Chang (http://hajoonchang.net/). Ver ainda «The Determinants of Entrepreneurship at the Country Level: A Panel Data Approach» de Gonçalo Brás e Elias Soukiazis (disponível em http://www.uc.pt/feuc/gemf/working_papers/pdf/2015/gemf_2015-14)



Sinopse:

Empreendedorismo. Saída para a crise de emprego? Nos últimos anos, o empreendedorismo tem-se apresentado como a saída para a crise do emprego. Multiplicaram-se programas públicos de apoio e promoção do empreendedorismo. O tema entrou nos currículos de todos os níveis de ensino, havendo até workshops de «empreendedorismo para bebés». O «espírito do empreendedorismo» foi acolhido nas políticas sociais e desenvolveu-se uma rede de instituições, plataformas e encontros destinados a disseminá-lo. Neste livro, dá-se conta deste processo, dos mitos que lhe estão associados e dos resultados concretos alcançados. Sabia que a totalidade das medidas de apoio ao empreendedorismo, nas quais foram investidas centenas de milhões de euros, chegaram apenas a 1% dos desempregados oficialmente inscritos? Sabia que os países onde há taxas mais elevadas de autoemprego não são os países com economias mais inovadoras, mas sim onde há mais pobreza, como o Vietname ou o Bangladesh? Sabia que a herança, e não o mérito e o esforço individual, tem um peso cada vez maior na acumulação de riqueza na nossa sociedade, ao contrário do que sugere o discurso do empreendedorismo? De Steve Jobs a Oprah Winfrey, de Miguel Gonçalves ao Shark Tank, aqui encontrará as histórias de encantar do empreendedorismo. Mas também o outro lado desta narrativa. Não estarão a vender-nos uma falácia?

07/07/2015

Repost: "Thomas Piketty: Germany has never repaid"

Traduzido para o inglês e publicado por Gavin Schalliol no site Medium.com (do original em alemão) uma entrevista de leitura "obrigatória"!

«In a forceful interview with German newspaper Die Zeit, the star economist Thomas Piketty calls for a major conference on debt. Germany, in particular, should not withhold help from Greece. This interview has been translated from the original German.

Since his successful book, “Capital in the Twenty-First Century,” the Frenchman Thomas Piketty has been considered one of the most influential economists in the world. His argument for the redistribution of income and wealth launched a worldwide discussion. In a interview with Georg Blume of DIE ZEIT, he gives his clear opinions on the European debt debate.

DIE ZEIT: Should we Germans be happy that even the French government is aligned with the German dogma of austerity?

Thomas Piketty: Absolutely not. This is neither a reason for France, nor Germany, and especially not for Europe, to be happy. I am much more afraid that the conservatives, especially in Germany, are about to destroy Europe and the European idea, all because of their shocking ignorance of history.

ZEIT: But we Germans have already reckoned with our own history.

Piketty: But not when it comes to repaying debts! Germany’s past, in this respect, should be of great significance to today’s Germans. Look at the history of national debt: Great Britain, Germany, and France were all once in the situation of today’s Greece, and in fact had been far more indebted. The first lesson that we can take from the history of government debt is that we are not facing a brand new problem. There have been many ways to repay debts, and not just one, which is what Berlin and Paris would have the Greeks believe.

ZEIT: But shouldn’t they repay their debts?

Piketty: My book recounts the history of income and wealth, including that of nations. What struck me while I was writing is that Germany is really the single best example of a country that, throughout its history, has never repaid its external debt. Neither after the First nor the Second World War. However, it has frequently made other nations pay up, such as after the Franco-Prussian War of 1870, when it demanded massive reparations from France and indeed received them. The French state suffered for decades under this debt. The history of public debt is full of irony. It rarely follows our ideas of order and justice.

ZEIT: But surely we can’t draw the conclusion that we can do no better today?

Piketty: When I hear the Germans say that they maintain a very moral stance about debt and strongly believe that debts must be repaid, then I think: what a huge joke! Germany is the country that has never repaid its debts. It has no standing to lecture other nations.

ZEIT: Are you trying to depict states that don’t pay back their debts as winners?

Piketty: Germany is just such a state. But wait: history shows us two ways for an indebted state to leave delinquency. One was demonstrated by the British Empire in the 19th century after its expensive wars with Napoleon. It is the slow method that is now being recommended to Greece. The Empire repaid its debts through strict budgetary discipline. This worked, but it took an extremely long time. For over 100 years, the British gave up two to three percent of their economy to repay its debts, which was more than they spent on schools and education. That didn’t have to happen, and it shouldn’t happen today. The second method is much faster. Germany proved it in the 20th century. Essentially, it consists of three components: inflation, a special tax on private wealth, and debt relief.

ZEIT: So you’re telling us that the German Wirtschaftswunder [“economic miracle”] was based on the same kind of debt relief that we deny Greece today?

Piketty: Exactly. After the war ended in 1945, Germany’s debt amounted to over 200% of its GDP. Ten years later, little of that remained: public debt was less than 20% of GDP. Around the same time, France managed a similarly artful turnaround. We never would have managed this unbelievably fast reduction in debt through the fiscal discipline that we today recommend to Greece. Instead, both of our states employed the second method with the three components that I mentioned, including debt relief. Think about the London Debt Agreement of 1953, where 60% of German foreign debt was cancelled and its internal debts were restructured.

ZEIT: That happened because people recognized that the high reparations demanded of Germany after World War I were one of the causes of the Second World War. People wanted to forgive Germany’s sins this time!

Piketty: Nonsense! This had nothing to do with moral clarity; it was a rational political and economic decision. They correctly recognized that, after large crises that created huge debt loads, at some point people need to look toward the future. We cannot demand that new generations must pay for decades for the mistakes of their parents. The Greeks have, without a doubt, made big mistakes. Until 2009, the government in Athens forged its books. But despite this, the younger generation of Greeks carries no more responsibility for the mistakes of its elders than the younger generation of Germans did in the 1950s and 1960s. We need to look ahead. Europe was founded on debt forgiveness and investment in the future. Not on the idea of endless penance. We need to remember this.

ZEIT: The end of the Second World War was a breakdown of civilization. Europe was a killing field. Today is different.

Piketty: To deny the historical parallels to the postwar period would be wrong. Let’s think about the financial crisis of 2008/2009. This wasn’t just any crisis. It was the biggest financial crisis since 1929. So the comparison is quite valid. This is equally true for the Greek economy: between 2009 and 2015, its GDP has fallen by 25%. This is comparable to the recessions in Germany and France between 1929 and 1935.

ZEIT: Many Germans believe that the Greeks still have not recognized their mistakes and want to continue their free-spending ways.

Piketty: If we had told you Germans in the 1950s that you have not properly recognized your failures, you would still be repaying your debts. Luckily, we were more intelligent than that.

ZEIT: The German Minister of Finance, on the other hand, seems to believe that a Greek exit from the Eurozone could foster greater unity within Europe.

Piketty: If we start kicking states out, then the crisis of confidence in which the Eurozone finds itself today will only worsen. Financial markets will immediately turn on the next country. This would be the beginning of a long, drawn-out period of agony, in whose grasp we risk sacrificing Europe’s social model, its democracy, indeed its civilization on the altar of a conservative, irrational austerity policy.

ZEIT: Do you believe that we Germans aren’t generous enough?

Piketty: What are you talking about? Generous? Currently, Germany is profiting from Greece as it extends loans at comparatively high interest rates.

ZEIT: What solution would you suggest for this crisis?

Piketty: We need a conference on all of Europe’s debts, just like after World War II. A restructuring of all debt, not just in Greece but in several European countries, is inevitable. Just now, we’ve lost six months in the completely intransparent negotiations with Athens. The Eurogroup’s notion that Greece will reach a budgetary surplus of 4% of GDP and will pay back its debts within 30 to 40 years is still on the table. Allegedly, they will reach one percent surplus in 2015, then two percent in 2016, and three and a half percent in 2017. Completely ridiculous! This will never happen. Yet we keep postponing the necessary debate until the cows come home.

ZEIT: And what would happen after the major debt cuts?

Piketty: A new European institution would be required to determine the maximum allowable budget deficit in order to prevent the regrowth of debt. For example, this could be a commmittee in the European Parliament consisting of legislators from national parliaments. Budgetary decisions should not be off-limits to legislatures. To undermine European democracy, which is what Germany is doing today by insisting that states remain in penury under mechanisms that Berlin itself is muscling through, is a grievous mistake.

ZEIT: Your president, François Hollande, recently failed to criticize the fiscal pact.

Piketty: This does not improve anything. If, in past years, decisions in Europe had been reached in more democratic ways, the current austerity policy in Europe would be less strict.

ZEIT: But no political party in France is participating. National sovereignty is considered holy.

Piketty: Indeed, in Germany many more people are entertaining thoughts of reestablishing European democracy, in contrast to France with its countless believers in sovereignty. What’s more, our president still portrays himself as a prisoner of the failed 2005 referendum on a European Constitution, which failed in France. François Hollande does not understand that a lot has changed because of the financial crisis. We have to overcome our own national egoism.

ZEIT: What sort of national egoism do you see in Germany?

Piketty: I think that Germany was greatly shaped by its reunification. It was long feared that it would lead to economic stagnation. But then reunification turned out to be a great success thanks to a functioning social safety net and an intact industrial sector. Meanwhile, Germany has become so proud of its success that it dispenses lectures to all other countries. This is a little infantile. Of course, I understand how important the successful reunification was to the personal history of Chancellor Angela Merkel. But now Germany has to rethink things. Otherwise, its position on the debt crisis will be a grave danger to Europe.

ZEIT: What advice do you have for the Chancellor?

Piketty: Those who want to chase Greece out of the Eurozone today will end up on the trash heap of history. If the Chancellor wants to secure her place in the history books, just like [Helmut] Kohl did during reunification, then she must forge a solution to the Greek question, including a debt conference where we can start with a clean slate. But with renewed, much stronger fiscal discipline.»

25/01/2013

Matemáticas



Porque o Governo diz que a despesa pública se manteve inalterada em relação a 2011, isto é, diz-nos a DGO que a despesa do Estado em 2012 foi igual à de 2011, vamos lá tentar fazer um desenho para alguns comentadores e optimistas da direita que dizem que isto é muito bom também perceberem:
(... e porque o Governo considera vencimentos, subsídios e pensões como "gorduras do Estado")


  1. No ano de 2011, mesmo depois de Passos Coelho ter dito que seria "um disparate", o Governo decidiu cortar sensivelmente 50% dos subsídios de Natal (entre outros cortes de vencimentos). Vamos tornar as coisas simples: cortou 25% dos (dois) subsídios;
  2. No ano de 2012, o mesmo Governo decidiu que as pessoas recebiam subsídios a mais e decidiu cortar os dois subsídios. Na linguagem simples, cortou 100% dos (dois) subsídios;
  3. Na prática, só o corte nos subsídios representa um corte na despesa de 15% com salários em relação a 2010 e 11% em relação a 2011;
  4. A estes 11% devem ser adicionados, aproximadamente, 5% (uma vez que os valores variam de 3,5% a 10%) das reduções remuneratórias dos vencimentos dos funcionários públicos (a cima dos 1.500€), e chegamos ai a uns, aproximadamente, 16%;
  5. Aparece o primeiro dado estranho: se a despesa "com pessoal" conta com aposentações e saídas da Administração Pública, que esse valor seja de 17,9%... as saídas apenas representam 1,9%?
  6. Mas, diz-nos a DGO, que a despesa com os juros aumentou 13,9%... e aqui aparece outra dúvida. Se por um lado temos -17,9% e por outro temos +13,9%, então a "despesa" não devia ser "=0%" mas sim "=-4%", ou seja, deveria ter havido uma redução da despesa em 4%
  7. Assim, facilmente percebemos que, se não considerarmos a subtracção dos subsídios nem o aumento com os pagamento de juros, o Estado aumentou a sua despesa em 4%...

Então, se isto é mesmo muito bom e mais uma evidência da boa gestão dos dinheiros públicos, em que raio de rubrica orçamental, e porquê, o Governo teve de aumentar 4%?!... Há coisas que a matemática não explica...

09/09/2012

Interpretações deficitárias

Na Assembleia da República, a 14 de Outubro de 2011, o Primeiro-ministro Pedro Passos Coelho no debate quinzenal, sem esconder que «no início do [s]eu mandato disse logo que tinha que ir mais longe que a 'troika'» defendeu a aplicação de medidas de austeridade em Portugal com a seguinte declaração:


Hoje, quase um ano depois, é claro e inequívoco que essas medidas, que entretanto foram precedidas de mais medidas penalizadoras para os portugueses, não surtiram qualquer efeito positivo. Pelo contrário, agravaram a situação da economia portuguesa e das condições sociais em Portugal.

Quando é quase certo o falhanço da meta prevista de 4,5% do valor do PIB crendo-se que, na melhor das hipóteses poderá ficar por um défice de 5,3% do PIB, que será que Pedro Passos Coelho tem a dizer?

E este défice, resultado das suas medidas, já é seu?





Excentricidade intelectual

Fotografia © José Carlos Pratas - Global Imagens
Quando há umas semanas, mais concretamente a 11 de Agosto de 2012, li no suplemento "Economia" do semanário Expresso a crónica de Daniel Bessa fiquei absorto com a regozijo pela queda das importações e o aumento, menos acentuado, diga-se, das exportações das empresas portuguesas: «Portugal está mais pobre, mas voltou a ser uma economia sustentável, não absorvendo mais do que produz.»

Sem explicar a verdadeira razão por trás deste argumento, isto é, sem explicar que a enorme queda das importações se dá pela brutal perda do poder de compra dos portugueses, Daniel Bessa lá foi dando graças ao Governo por tamanho feito.

Esta semana, "no mesmo local e à mesma hora" Daniel Bessa brinda-nos novamente com a sua excentricidade intelectual (fiquemo-nos por esta expressão, bem mais simpática que aquela que, verdadeiramente, me apetecia aplicar). Desta vez, porque seria de tamanha hipocrisia e ridículo a utilização do seu panfleto de campanha para uma defesa do Governo no que diz respeito a uma longínqua hipótese do cumprimento da meta do défice para 2012: 4,5% do PIB.
Assim sendo, e porque é importante a defesa daqueles dirigem um país imaginário, que só eles vêem, para evitar uma maior desonestidade intelectual Daniel Bessa presenteia-nos com outra conclusão singular:

«Um défice de 5,3% do PIB, apesar de superior ao objectivo de 4,5% do PIB, tudo ponderado [...], é um bom resultado. [...] Se o défice de 2012 ficar nos 5,3% do PIB, os sacrifícios terão valido a pena.»

Com a mesma facilidade com que achamos ridícula a excentricidade física, podemos considerar que facilmente se caminha para a insignificância quando se faz uso da excentricidade intelectual.

11/07/2010

A crise do Capitalismo

"A crise do Capitalismo", a visão de David Harvey e animada pela RSA.
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PT, Telefónica e Vivo (em resumo)

Eis que Nicolau Santos na sua crónica semanal do Expresso (Economia) de 03-07.2010 resume muito bem todo este processo:

«Ponto 1. o Estado português fez muito bem em ter utilizado a golden share para impedir a compra da Vivo pela Telefónica. As ofendidas virgens do mercado sobem pelas paredes com o crime. Pois convém lembrar-lhes que se há país que mais tem utilizado o poder do Estado para impedir a compra das suas empresas por estrangeiros tem sido precisamente (adivinhem?) Espanha. Os exemplos abundam no sector energético, no sector financeiro, no mercado de combustíveis. Em Itália, Berlusconi impediu que a mesma Telefónica tomasse o controlo da Telecom Italia. E o que fez a Telefónica? Meteu o rabo entre as pernas e veio tentar comer um osso que julgava mais fácil. E na Gália o Governo francês impediu a compra da Danone por uma multinacional, bem como a entrada de investidores estrangeiros no seu sector energético. As virgens ofendidas do mercado têm muitos países onde ir morrer longe, inclusive em Inglaterra onde ainda existem golden shares!

Ponto 2. Ai, mas coitadinhos dos acionistas da PT, que queriam vender e o Estado não deixou! Em primeiro lugar, os acionistas da PT têm beneficiado de um muito agressivo plano de remuneração das ações após a OPA da Sonaecom. Em segundo, suponho que nenhum acionista da PT desconhecia a existência de uma golden shares do Estado. Se pensavam que a dita cuja era assim uma espécie de berloque para colocar na árvore de Natal, sem outra utilização do que nomear um presidente do conselho de administração, mais uns compagnons de route, problema deles.

Ponto 3. Em todo o processo, quem se portou de uma forma altamente reprovável foi a Telefónica. Avançou para a compra da Vivo sem avisar o seu parceiro de há treze anos. Rejeitada, passou às ameaças: que congelava os dividendos da Vivo, que lançava uma OPA sobre a PT. Nunca aceitou conversar com os três principais dirigentes da operadora portuguesa, apesar de ter sido anunciada publicamente a sua disponibilidade. Depois, nervosa e sem nenhum pudor, vende a sua posição na PT a três investidores pintados para poderem votar na AG. Como as autoridades impedem o truque, desenvolve conversas paralelas com alguns acionistas nacionais de referência no dia anterior à Assembleia Geral para garantir que votarão a favor da proposta se aumentar o preço. E em todo este processo, nunca a Telefónica pediu para falar com representantes do Governo português. Há alguma dúvida de quem se portou de uma forma pesporrenta e arrogante? E sobre este comportamento não há nenhuma crítica das virgens ofendidas do mercado?

Ponto 4. A PT sem a Vivo deixa a Liga de Campeões das telecomunicações e passa a jogar nos campeonatos distritais. Mas Portugal também fica muito pior. Até agora, com a Vivo, a PT é um dos maiores empregadores nacionais, sobretudo ao nível dos jovens engenheiros e gestores formados nas escolas portuguesas; uma das empresas que mais atrai o talento nacional; uma das empresas que mais investe no país, em particular na área da inovação; uma das empresas que mais impostos paga; uma das empresas com mais atividade nas áreas de responsabilidade social. Sem a Vivo, tudo será diferente para a PT e para Portugal. A escala será muito mais reduzida, quase paroquial. É isto que o veto do Estado português ao negócio quer impedir. Por isso, foi muito bem utilizado.
»


Esta semana, 10.03.2010, volta ao tema como mais uma excelente crónica ("A PT e o seu ex-núcleo duro") para relembrar alguns factos da história da PT e alguns dados que normalmente ficam fora destas discussões, terminando de forma inequívoca:

«O que atrás fica descrito demonstra que estas três entidades [BES, Ongoing e Visabeira] são as que menos se podem queixar da decisão do Governo de proibir a operação. E se tivessem vergonha estavam era muito discretamente calados.»

Puxar da pistola - por Pedro Adão e Silva

Um texto muito interessante que pode ser encontrado no Léxico Familiar.

«Há um par de anos, um grupo de empresários portugueses lançou um movimento para defender os centros de decisão nacionais. Ricardo Salgado, por exemplo, aquando da OPA do BCP ao BPI, e a propósito do papel do banco espanhol La Caixa, afirmava que o BES "está sempre pronto a colaborar no que se refere à construção de uma solução nacional de oposição a eventuais take overs hostis de estrangeiros". Depois do que se passou na quarta-feira, com a disponibilidade revelada por alguns desses mesmos empresários para enviar a PT para as distritais do campeonato mundial das telecomunicações, fica aqui uma promessa: da próxima vez que me falarem em centros de decisão nacionais "puxo logo da pistola". A questão é suficientemente séria. O que está em causa não é a sustentabilidade das contas públicas, é a sustentabilidade do estado-nação, que depende da existência de empresas nacionais internacionalizadas como a PT. E o que fica provado é que não há ninguém com capacidade para defender os interesses do país. É sabido que o mercado é a soma de um conjunto de acções racionais individuais que não resultam necessariamente numa opção estratégica racional. No caso da oferta pela Vivo, é de facto racional para os accionistas privados, a precisarem de liquidez, vender à Telefónica. Mas a consequência desta soma de acções individuais é só uma: amputar a manutenção da PT como empresa com escala e dimensão. O Estado pode usar a golden share para bloquear o negócio, mas o mais provável é a opção ser ineficaz. No fundo, a situação do país é mesmo insustentável: com empresários a apostarem no curto prazo e a desprezarem o interesse estratégico e um Estado frágil, que age com uma ilusão de poder que já não tem, podemos mesmo estar condenados.»

28/06/2010

Crescimento na Zona Euro

Um gráfico interessante disponibilizado no site da BBC News.
Este diz respeito ao crescimento dos países na Zona Euro, mas paralelamente outros estão também disponíveis como da dívida, economia, desemprego e até as medidas para tentar sair desta crise.

Muito interessante para quem quiser fugir um pouco à intoxicação promovida por algumas figuras (e ex-figuras!) da política nacional e veiculada pela comunicação social.

Recomendo.

04/06/2010

Pilares da desconfiança

Quando as bolsas andam num corrupio, as economias altamente instáveis e os governos a aplicar medidas de austeridade para aguentarem as suas finanças, é nas agências financeiras (empresas privadas) como esta que os mercados procuram regulação e pilares de confiança:

«O presidente executivo da Moody's admite que a agência de notação financeira falhou na atribuição de 'ratings' nos últimos anos que antecederam a crise financeira nos EUA.

Raymond McDaniel diz que os ‘ratings' que a agência atribuiu a produtos financeiros complexos e assegurados por hipotecas de alto risco, durante os últimos anos foram "profundamente decepcionantes".»

Este senhor diz ainda que «que o colapso do mercado imobiliário e a consequente crise foram de uma magnitude que "muitos de nós pensávamos ser inimaginável"»... Ainda bem que os relatórios que produzem (pena não sabermos quem são os seus clientes) se baseiam em previsões!


E andamos todos nós entregues a estes bichos!



21/05/2010

O relógio

Quando ouço alguns partidos a bradar a todos que há 5 anos que andam a pregar para a desgraça de Portugal e que, ainda com algumas inverdades, omissões e mentiras, atingimos o ponto que todos eles haviam previsto, que nem Zandinga, lembro-me duma velha e grande verdade:

"mesmo um relógio parado indica a hora correcta duas vezes por dia"!


Lá demagogia há aos molhos... como o alecrim.


Vale a pena ler esta crónica:

«De facto, o crescimento das exportações de bens de 5% em Janeiro, 12% em Fevereiro e de mais de 20% em Março é em parte explicado pela alteração da estrutura de exportações e pela evolução que o País está a conseguir na conquista de novos mercados, fugindo à sina do baixo crescimento dos mercados europeus.

Os dados do primeiro trimestre para os bens e também para os serviços, e as indicações que já existem sobre a evolução em Abril, tornam inevitável que as instituições internacionais, que até há pouco tempo previam crescimentos das exportações portuguesas entre 1.3 e 3.8% em 2010, estejam a rever estes números.

A alteração da estrutura sectorial e dos mercados das exportações portuguesas pode ser o garante de um crescimento saudável da economia portuguesa em 2010, contrariando o efeito recessivo que as medidas de consolidação terão no segundo semestre. Mas, principalmente, a evolução da última década e meia e do primeiro trimestre de 2010 mostram que as crónicas sobre a morte da competitividade portuguesa eram claramente exageradas.
»



17/05/2010

Afinal, em que é que ficamos?

E assim, se continua a descredibilizar a classe política. É incrível como se continuam a repetir situações destas.

João Galamba, deputado do PS, no programa Parlamento da RTP2 levantou a lebre. O DN aproveitou a deixa:

«Dias antes de acusar o ministro Jorge Lacão de negar a realidade da crise como o ministro da Propaganda de Saddam Hussein negou a derrota na guerra, Miguel Frasquilho, o rosto da bancada do PSD para as questões financeiras, assinou um relatório em que elogia a consolidação das contas públicas do Governo de José Sócrates e diz que a queda do rating da dívida portuguesa não reflecte o estado da economia.

[...]

No relatório com o carimbo da Espírito Santo Research, o vice- -presidente da bancada laranja repete alguns dos argumentos do Executivo que ele próprio vem atacando no Parlamento.

[...]

Frasquilho disse ao DN que subscreve integralmente o relatório e que ele é coerente com as suas posições, mas avisou que "em política não vale tudo". O economista notou que se trata de um relatório internacional, "um documento para fora", e acrescentou: "Não me parece que nesta altura de crise que o País atravessa que devesse usar os mesmos argumentos da arena política."»


Mesmo assim, Miguel Frasquilho diz que «em política não vale tudo». Será? Não e isso que mostra!

Se muita gente já tem dificuldade em acreditar nos políticos, mesmo quando eles são sérios e coerentes com as suas posições, mais difícil será quando são os próprios políticos que colocam em contradição os seus actos.






12/05/2010

Era bom demais para ser verdade

Hoje o INE deu-nos uma boa notícia:

«A Estimativa Rápida do Produto Interno Bruto (PIB) aponta para um aumento de 1,7% em volume no 1º trimestre de 2010 face ao período homólogo, o que compara com a variação de -1,1% registada no trimestre anterior. Face ao trimestre precedente o PIB terá registado um aumento de 1,0%.
O aumento do PIB em termos homólogos no 1º trimestre esteve parcialmente associado a um efeito de base (o PIB no 1º trimestre de 2009 diminuiu 3,7%), verificando-se uma melhoria dos contributos da Procura Interna e da Procura Externa Líquida, mais intensa no primeiro caso.
»



Amanhã o Governo dar-nos-á uma má notícia:


«Neste plano mais ambicioso está o aumento da carga fiscal, e que começará pelos rendimentos de trabalho, para além do que já se paga em IRS, será criada uma tributação autónoma a título extraordinário para todos.

A taxa a aplicar será de 1% para quem ganhar até cinco salários mínimos, ou seja, 2375 euros por mês. Quem ganhar acima disto pagará 1,5% de imposto extraordinário todo os meses.

[...]

Mas há mais. O IVA vai subir de 20 para 21% - um dado avançado pela TVI e confirmado pelo Governo -, mas não se fica por aqui: há um aumento que também se vai aplicar aos produtos de primeira necessidade que sobe de 5 para 6%; nos restaurantes o IVA aumenta para os 13%.
»



Parece-me que com esta decisão o Governo (apoiado ou a reboque do PSD) dará um passo atrás ao que foi atingido no 1º trimestre.
Não é preciso ser economista para perceber que o aumento da carga fiscal, mesmo que fosse só do IVA (e vai haver muita gente a aproveitar-se disso, a minha memória não é tão curta como a de alguns), irá provocar uma contracção no consumo.

A "Procura Interna" vai reduzir significativamente e, naturalmente, com consequências óbvias no PIB.
Terá também repercussões na "Procura Externa" com o aumento no custo das matérias primas!



A acabar de escrever este texto vejo alguém, que até percebe do assunto, a alertar para esse risco:
«Mas «reduzir o défice irá travar o crescimento», frisa o economista [António Perez Metelo]. «O rendimento disponível dos portugueses vai ser menor»: a acrescentar ao imposto generalizado de 1% a 1,5% sobre os salários, o aumento do IVA também irá penalizar o bolso, e «travar o consumo».»


Depois dos resultados divulgados relativos ao 1º trimestre de 2010, uma medida destas parece-me uma precipitação que nos poderá trazer alguns dissabores (económicos, políticos e sociais)!
Parece-me que, talvez por influência da visita papal, Portugal está a querer ser "mais papista que o papa"!




Eu lembro-me disto a 30 de Abril:

«O primeiro ministro, José Sócrates, garantiu hoje que o Governo não vai aumentar o IVA, justificando que essa medida que não está prevista no Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), documento que se comprometeu a cumprir fielmente.

"O que vamos fazer é o que está no PEC. A senhora deputada vê lá o aumento do IVA? Não vê", disse o primeiro ministro no debate quinzenal no Parlamento, perante a insistência da deputada do Partido Ecologista "Os Verdes", Heloísa Apolónia.

"Estamos confiantes e seremos fiéis ao nosso programa. São essas medidas que importam tomar", sustentou José Sócrates.»



Hesito... e muito!!




10/05/2010

Velhas glórias

No dia em que foram recebidos dez "velhas glórias" das finanças portuguesas como Hernâni Lopes, Eduardo Catroga, Manuela Ferreira Leite e o "grande" Medina Carreira, sem contar com Cavaco Silva, um rol de ex-ministros das Finanças de Governos PSD (exceptuando Pina Moura e Cunha e Campos, o ministro dos 4 meses), lembrei-me de evocar dois textos. Um de Goethe e outro de Ricardo Reis.

O primeiro, e tomando em consideração a declaração feita após este encontro, «[...] os ex-ministros defenderam - sem especificar quais - medidas "adequadas e urgentes" para resolver "os problemas actuais"» consegue duma forma muito sucinta resumir o trabalho destes senhores à frente do ministério e nas suas mais recentes intervenções:

«pensar é fácil, agir é difícil, mas agir em harmonia com o que se pensa é o que há de mais difícil no mundo».


Lembrando-me que um dos critérios de Norberto Bobbio para a distinção entre esquerda e direita, talvez o mais significativo, é a diferença de atitude dos homens face ao ideal de igualdade, fui à procura entre os meus recortes dum ensaio publicado no jornal i publicado em Julho de 2009, em vésperas de eleições legislativas. O ensaio do Prof Ricardo Reis, em determinada altura, reza assim:

«[...] Além da economia, a ideologia conta muito para a despesa do Estado. Este é um dos temas políticos mais ferozmente debatidos entre quem prefere um Estado mais ou menos intervencionista na economia e na sociedade. Sendo o PSD o partido à direita, esperaríamos que o crescimento do Estado fosse mais moderado quando está no poder. Mas os dados revelam uma realidade surpreendente. Quando o PSD está no poder, o monstro cresce em média 0,35% por ano, enquanto quando é o PS no poder a despesa cresce apenas 0,25% por ano. Se olharmos só para o efeito do partido no poder na despesa pública para além do efeito das variáveis económicas, então o contributo do PSD para o monstro é ainda maior, o dobro do que o do PS. Olhando para os quatro governos individualmente, o maior aumento na despesa veio durante os governos de Durão Barroso e Santana Lopes: 0,48% por ano. Segue-se-lhe o governo de Cavaco Silva com 0,32%, António Guterres com 0,31%, e por fim José Sócrates com um aumento de apenas 0,14%. Se excluirmos o enorme aumento na despesa no primeiro trimestre de 2009 associado à crise, o governo de José Sócrates e dos ministros Campos e Cunha e Teixeira dos Santos teria a rara distinção de ser o único governo que reduziu o tamanho do monstro, de 21,5% do PIB quando tomou posse para 21% no final de 2008.»





02/05/2010

Portugal e Grécia, que diferenças?

«Enquanto as previsões e as estatísticas dos gregos está avolumada de asteriscos porque deixaram de ser credíveis, Portugal tem, apesar das dificuldades que a economia portuguesa enfrenta, tem mais credibilidade do seu lado e um histórico de redução de défice nos últimos anos.

Não só porque, desde a sua entrada na então Comunidade Económica Europeia, os portugueses têm cumprido com as suas obrigações e metas fixadas, mas também porque os sucessivos governos têm demonstrado que, quando toca a reunir, são capazes de mobilizar o país para conseguir continuar num dos blocos económicos mais ricos do mundo.

[...]

Portugal tem ainda do seu lado uma previsão de crescimento já para 2010, de 0,7% de acordo com os números do Governo (que muitas instituições prevêem que seja mais baixo) contra uma contracção de 0,3% do produto grego (também considerado optimista).
»


Quem o diz é o Diário Económico, aqui.



30/04/2010

Ventos vindos de fora...

«Portugal is doing better than Greece in its budget deficit (9.4% of GDP in 2009, compared with 12.7%) and public debt (85% of GDP this year, against 124% in Greece). Unlike Greece, its public accounts are credible and it has a record of taking tough fiscal measures when necessary—between 2005 and 2007, it cut its budget deficit in half, from 6.1% of GDP to 2.6%. A four-year austerity programme to chop the budget deficit again, this time to 2.8% of GDP in 2013, has been adopted.

Again unlike Greece, the centre-left government of José Sócrates is a pioneer of reform. It has linked pensions to changes in life expectancy and introduced incentives for later retirement. According to the European Commission, age-related public spending will rise by only 2.9% of GDP in Portugal over the next 50 years, compared with a euro-area average of 5.1% and a startling 16% in Greece. Despite some public-sector protests, opposition to spending cuts is less noisy than in Greece.

So why are markets fretting over Lisbon’s debt burden (yields on two-year bonds have risen to 4.8%)? And why have such figures as Simon Johnson, a former IMF chief economist, and Nouriel Roubini, a New York economics professor once labelled Dr Doom, said that a Greek-style crisis could infect Portugal?
»

In The Economist



«Portugal "is not yet playing in the same league as Greece," says Carsten Brzeski, an economist at ING Bank in Brussels. Portugal's borrowing costs may be rising, but they aren't leading to a pressing liquidity shortfall, as in Greece's case, Mr. Brzeski says.

The yield on Greek 10-year government bonds rose to 8.7% last week from about 7.4% the prior week, prompting Greece's request Friday for an aid package of as much as €45 billion ($60.22 billion) from the European Union and the International Monetary Fund.

Portugal's predicament appears significantly less acute. Its overall public debt is close to 80% of GDP, while's Greece's surpassed 110% of GDP last year.

The Portuguese government is slated to borrow around €20 billion to €22 billion from bond markets this year, less than half of Greece's borrowing needs.

[...]

Portugal also has a better track record than Greece at improving its public finances, even in a weak economic environment.

The EU has officially warned Portugal three times in the past decade for running budget deficits that broke the EU's limit of 3% of GDP.

Under pressure from Germany and France, Lisbon brought its deficit below 3% in 2008, despite persistently weak economic growth that averaged around 0.8% a year from 2002 to 2008.

That experience makes Portugal's promises of budget cuts more credible now, analysts say. Many investors doubt Greece can do the same.
»

In The Wall Street Journal...



21/04/2010

Não há truque que não lucre ao FMI


«Simon Johnson, antigo economista chefe do FMI, considera que Portugal, tal como a Grécia, "corre risco de falência económica" e é hoje um país mais arriscado que a Argentina de 2001.»

Fico com uma dúvida: trata-se de um aviso ou duma angariação de "clientes"?


FMI, uma instituição com puros interesses económicos (desconhecidos) e que "vive" das "falências económicas" dos Estados.

Uma breve consulta histórica sobre a intervenção desta organização privada em diversos países, principalmente na América do Sul, dar-nos-á a capacidade de, pelo menos, questionar a parcialidade deste tipo de "avisos".

Uma excelente iniciação neste tema deve passar sempre pela leitura do livro "Império da Vergonha" de Jean Ziegler.

«Assistimos hoje a um formidável movimento de refeudalização do mundo. Na verdade, o 11 de Setembro de 2001 foi mais do que uma boa oportunidade para George W. Bush alargar o domínio mundial dos Estados Unidos: serviu mesmo para os grandes empórios transcontinentais partilharem entre si os povos do hemisfério sul.
Para conseguirem impor este regime inédito de submissão dos povos aos interesses das grandes companhias privadas, há duas armas de destruição maciça que os senhores do império da vergonha sabem esgrimir de forma admirável: a dívida e a fome. Pelo endividamento, os Estados abdicam da sua soberania; pela fome que daí resulta, os povos agonizam e renunciam à liberdade.
Mas quem são estes cosmocratas? - como lhes chama Jean Ziegler. São senhores que, pouco a pouco, tudo privatizam, inclusive a própria água que depois os povos terão de lhes pagar. Este livro segue a pista dos seus métodos mais dissimulados: aqui regista-se a patente da vida, ali quebram-se as resistências sindicais, além impõe-se pela força a cultura dos OGM (organismos geneticamente modificados).
Sim, o império da vergonha instalou-se sub-repticiamente no planeta. Mas foi precisamente a vergonha que serviu de suporte ao impulso revolucionário de 1789. E a nova revolução está em marcha: insurreições das consciências aqui, insurreições da fome acolá. Só ela pode conduzir à refundação do direito à felicidade, uma velha questão do século XVIII.»




Nota: o título faz parte do refrão da música "FMI" de José Mário Branco.



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