24/05/2012

A insustentável leveza da insistência

Num momento em que vemos ministros de Governos PSD envolvidos em histórias pouco transparentes com a comunicação social (e muito mal explicadas e com um desejo de que assim permaneça), acabamos por ter uma sensação de dejá vu se nos lembrarmos  do imbróglio em 2004 que levou Morais Sarmento a querer acabar com a Alta Autoridade para a Comunicação Social quando esta emitiu um parecer negativo sobre uma decisão para a RTP ou de Rui Gomes envolvido na trapalhada com a TVI e com Marcelo Rebelo de Sousa.
Mais recentemente vimos também o, na altura, candidato a um segundo mandato presidencial, antigo líder venerado no PSD, Aníbal Cavaco Silva a ficar inerte quanto aos atropelos à liberdade democrática e de expressão na Madeira perpetrados pelo líder, outro venerado, do PSD Madeira, Alberto João Jardim. Diga-se, de passagem, que ainda hoje esses tiques de autoritarismo e totalitarismo continuam evidentes sem que o já reeleito Presidente se digne a tomar qualquer medida pela defesa da democracia num Estado de Direito como (se julga ser) Portugal - parece que a intervenção activa prometida no discurso de tomada de posse só vigorou até Junho de 2011!
Em seguida vimos também a bipolaridade política (e ética) de Manuela Ferreira Leite que em território continental bradava, juntamente com Paulo Rangel, pela denuncia uma hipotética asfixia democrática enquanto elogiava o "bastião inamovível" que era o "bom Governo do PSD" na Madeira onde a democracia era regra, pedindo depois um mandato para suspender a democracia por 6 meses para "começar de novo".


Disseram-me os meus anos de estudo e alguns trabalhos, que fiz nesse período sobre o tema que, historicamente, existe e continuará a existir uma relação entre o espectro político e a comunicação social. São duas esferas que se alimentam uma da outra. Não se prevê, por isso, que este tipo relações venha a ter um fim próximo. No entanto, o que se espera desta relação é que mantenha um rigor ético e moral e até profissional em cada das suas áreas de abrangência.


O que assusta nesta linha de orientação do PSD, ou padrão de conduta, não é propriamente a sua relação com a comunicação social mas sim a sua interpretação e aplicação de conceitos como os de LIBERDADE, DEMOCRACIA e RESPEITO PELAS INSTITUIÇÕES...

16/05/2012

Histórias de rua 1

Uma das coisas que mais gosto de fazer é caminhar pelas ruas e andar em transportes públicos. Não pelo conforto que proporcionam, tanto as ruas como os transportes - ainda que os últimos tenham evoluído nos últimos anos, coisa que não se pode dizer das primeiras.
Mas o meu interesse é pelos "tesouros" que as pessoas, umas mais interessantes do que outras, proporcionam. Gosto imenso de observar o comportamento do ser humano... em público!
Por isso decidi reservar aqui algum espaço para estas "histórias de rua", alguns pequenos achados comportamentais...


Hoje, enquanto regressava a casa, à espera do metro, observei três jovens em divertida conversa. Dois rapazes e uma rapariga. Três, quero dizer, dois porque o terceiro se limitava a sorrir e ouvir. Então percebi que se tratava de um casal de namorados e um "velho" amigo do elemento feminino. O que sorria era o namorado que assistia à conversa animada e com pequenas palmadinhas da sua namorada com o "velho" amigo.
A conversa animada, sorrisos, gargalhadas e recordações lá continuou pelo metro a dentro... e o namorado sorria em silêncio... quando saiam os três, a namorada queixava-se de ter perdido qualquer coisa ao que o "velho" amigo terá argumentado que tal, nela, não seria novidade... é então que, depois de tanto sorriso e simpatia demonstrada pelo namorado este é presenteado com um "oh [nome do namorado que não percebi] então?! Defende-me! Ataca! Vá, morde! Morde!"...


Já dizia o poeta que o "Amor é fogo que arde sem se ver / É ferida que dói e não se sente / É um contentamento descontente / É dor que desatina sem doer"...
... amor, a quanto obrigas!

02/05/2012

O poder da cenoura


O último post que aqui coloquei, porque a disponibilidade nesta fase não é muita, tratou-se duma defesa pelos direitos adquiridos. Hoje escrevo porque se levantam muitas dúvidas se deles seremos merecedores e pelo descontentamento no caminho que os portugueses estão a escolher para o meu país!

Há uns meses, mais de 10, o país puxava pelos pulmões para apelidar o Governo da altura de anti-social, de atentar contra os direitos dos trabalhadores e contra o Estado Social. Hoje, temos um Governo do mais liberal que alguma vez Portugal conheceu, mais liberal até que os próprios mentores, os britânicos, e o que faz o povo que antes se mostrava interventivo?... Nada! São baixas as vozes discordantes, talvez se tenham tornado roucas e cansadas. Hoje são raras as manchetes de jornais que antes enchiam páginas e páginas de investigações, conjunções, invenções e outros 'ões'. Talvez hoje seja mais caro pagar a jornalistas para fazer investigações políticas e pessoais do que há um ano!

Há uns meses, meia dúzia talvez, meio país bradava aos céus e chamava traidor ao dirigente máximo do grupo Jerónimo Martins, entre outras coisas o detentor da cadeia de supermercado Pingo Doce, por este ter desviado o pagamento de impostos e lucros para fora de Portugal. Hoje, precisamente hoje, metade do país acorreu em massa às superfícies comerciais deste (anteriormente) conhecido por traidor com a ilusão de que só pagaria metade do valor das suas compras, precise ou não precise, de bens essenciais e supérfluos!

Isto faz levantar algumas questões e certezas verdadeiramente arrepiantes.
- Primeiro, é arrepiante verificar que Portugal se tornou num país de Portugueses sem memória.
- É arrepiante verificar que uma cadeia de supermercados como a do Pingo Doce consegue ter maior capacidade de mobilização que as associações sindicais, os partidos políticos ou mesmo as dificuldades de carácter político e social que o país atravessa e que deveriam mover a população.
- É arrepiante ver que uma cadeia de supermercados a comemorar a primeira vez que força trabalhadores a laborarem num feriado que, supostamente, celebra os direitos e conquistas destes, com campanhas que apela ao consumismo de forma irracional.
- É arrepiante verificar que a cadeia de supermercados como a do Pingo Doce consegue suportar o "prejuízo" de 50% das vendas de um dia atípico como este e imaginar que durante o resto do ano os preços continuam demasiadamente inflacionados.
- É arrepiante ver o pouco ou mesmo inexistente civismo e educação duma grande parte das pessoas que acorreram a este engodo.
- É arrepiante ver como uma cadeia de supermercados como a do Pingo Doce se promove apelando à necessidade e dificuldade das pessoas revelando uma ausência de escrúpulos e qualquer resquício de ética.

Não deixa de ser curioso que uma cadeia de supermercados como o Pingo Doce decida promover uma campanha de auto promoção como esta precisamente neste dia, no dia do trabalhador, uma data assinalada com um feriado (por enquanto).
Fico curioso em saber quais as reais razões para esta acção:
- ajudar quem mais precisa?... Não me parece! É que quem mais precisa não se pode dar ao luxo, porque não tem como, de "largar" 100 euros, ou mais, para beneficiar da promoção de 50% de desconto. Numa grande parte dos casos, esse valor representa cerca de 50%, ou menos, do rendimento mensal (logo no primeiro dia do mês)!
- justificar a abertura num dia como este?... Talvez, afinal, as dezenas de trabalhadores precários que compõem a força laboral do Pingo Doce precisariam de ser remunerados (pois em condições normais a remuneração num feriado deveria ser maior do que a de um dia normal).
- dar oportunidade ao maior número de Portugueses para aproveitar a oportunidade?... Não acredito visto que a semana passada houve outro feriado e entretanto um fim-de-semana onde promoções deste tipo não ocorreram.

Portugal e os Portugueses estão a trilhar um caminho perigoso, demasiadamente perigoso... e eu não estou a gostar!! A história não se repete, mas tem ciclos...


Ah, e com esta trapalhada injustificada e mal pensada, a cadeia de lojinhas Pingo Doce provou que anda a enganar os Portugueses de "Janeiro a Janeiro": primeiro porque consegue ter os preços mais baixos "o ano inteiro" e porque mesmo "sem talões nem cartões" consegue também criar muitas "outras complicações"!...
... este é o Poder da cenoura!


Nota: até a escolha do "boneco" que ilustra o texto não é inocente. É uma ilustração do semanário Expresso, de outros tempos... outros tempos...

Ora aqui fica um vídeo que pode ajudar a explicar o engodo... pelos próprios!

23/02/2012

Pela defesa dos direitos adquiridos

Desde que terminaram as perseguições políticas nos jornais portugueses, na altura em que se investigavam tios, primos, mães e amigos de lideres políticos, as manchetes passaram a dar-nos conhecimento da existência duma crise, que inicialmente era exclusivamente portuguesa mas que rapidamente passou a ser fruto duma conjuntura internacional apresentando-nos, assim, o trio ideal que pode ser utilizado como justificação para tudo: A Crise, A Troika e O Memorando.
Três aspectos que cedo nos apresentaram na condição de consequências e que subitamente passaram à condição de causas.

Por causa da crise, os Portugueses terão de empobrecer para a economia crescer, disse-nos o Primeiro Ministro; por causa da Troika nem sequer foi dada a tradicional tolerância de ponto no Carnaval; por causa do Memorando os trabalhadores terão menos dias de férias.
Por causa da crise, os trabalhadores e os pensionistas pagaram de imposto mais cerca de 50% do seu subsídio  de Natal em 2011, que se revelou desnecessário; por causa da Troika terá que se trabalhar mais e ter menos feriados e "pontes" defendendo que isso trará mais produtividade, uma noção erradamente explorada e de uma forma demagógica e populista; por causa do Memorando as empresas públicas e participações do Estado em empresas vão ser vendidas ao desbarato.
Enfim, tudo por causa da Crise, da Troika e do Memorando... ah, e também, fazem-nos crer, que por causa do último Governo.

Mais recentemente ainda, as manchetes dos jornais vão dando conta de grandes benefícios que os funcionários de algumas empresas públicas têm. Borla nos barbeiros, viagens de comboio grátis para si e seus familiares, medicamentos e até subsídios! Escândalo! Que afronta! Eis a causa de tantos prejuízos nestas empresas! E nós, o povo, que nos cortam o pouco que temos para que estes possam ter estas mordomias!... fazem-nos acreditar estes jornais e o Governo.

Mas ainda que consigamos ignorar que estas notícias façam capa em jornais como o Correio da Manhã ou do Jornal de Notícias ou mesmo do Diário de Notícias, antigas referências jornalísticas que hoje podem ser colocadas lado a lado com edições como o Crime ou o Jornal do Incrível, bem atrás do jornal Ocasião ou da Dica do Dia, é preciso tentar fazer um exercício em perceber por que razão aparecem estas notícias agora.
Por que será que estas notícias que colocam trabalhadores contra trabalhadores aparecem dia sim e dia não nos jornais? Será coincidência que no dia em que se acusam trabalhadores de terem consagrado nos seus contratos colectivos de trabalho uma borla no cabeleireiro, que se calhar poupou muito dinheiro à empresa por não a fazer pagar um subsídio, surge o Ministro da Economia e do Emprego a dizer que Portugal parou no Carnaval devido aos contratos colectivos de trabalho?

Estas situações, e à forma como o jornalismo hoje é feito, num ápice levam a que as pessoas sejam conduzidas para uma linha de pensamento fácil e perigosa! De forma perigosa ouvimos as pessoas apontar o dedo a este tipo de "direitos adquiridos" ou "benefícios" e, sem discutir se são úteis ou disparatados, benéficos ou prejudiciais, como algo que "numa situação de crise" deveriam ser cortados! Eliminados! Cortem-se este tipo de injustiças, porque uns têm e outros não! Se podem cortar subsídios então este tipo de coisas deveria ser cortadas!
Mas esta maneira de pensar é perigosa! Muito perigosa, porque uma acção neste sentido, se uns não têm então os que têm não devem ter, é desrespeitar a lei, a justiça, o princípio de igualdade e o direito democrático. Porquê?
Porque primeiro, estamos a falar de contratos colectivos de trabalho que foram alvo de negociação e para os quais há legislação que lhes confere força; segundo, porque cortar direitos tendo por base um discurso meramente populista, fica bem no ouvido, é verdade, sem que se demonstre se são eles a causa dos prejuízos é descredibilizar toda a luta pela conquista de direitos; terceiro, porque o facto de "eu" não poder usufruir dessas benesses, não me dá o direito de exigir que outros não possam delas usufruir; e quarto, porque cortando por cortar, desrespeitando a legislação com base no "porque sim" ou no "interesse nacional" (qual?) é quebrar o princípio democrático pelo qual as sociedades se devem orientar, bastante característico das ditaduras, diga-se.

Nestes casos, em minha opinião, a abordagem feita na discussão do tema nunca deve ser feita no sentido descendente mas sim no sentido ascendente, isto é, não devo contestar o facto de "eu" não ter esses direitos exigindo que os outros também deles sejam privados! Devo sim contestar o facto de "eu" não ter esses direitos, exigindo que se mantenham para os outros e lutando para que também "eu" possa ter acesso a eles! Ao não agir desta forma e pedindo que cortem a outros porque "eu" tenho menos, estou a legitimar que amanhã alguém possa  vir a cortar ainda mais o pouco que "eu" hoje tenho!

Tal como não aceitei a justificação do Primeiro Ministro para o cortes dos subsídios de férias e de Natal aos funcionários da Administração Pública, por estes terem maior estabilidade laboral em relação ao trabalhadores do privado (o que também não é totalmente verdade), não posso aceitar que se cortem direitos adquiridos ou negociados só porque há outros na mesma escala hierárquica que não os têm!
Ao defender o corte de direitos adquiridos ou que se possam rasgar contratos negociados e assinados desta forma leviana seria, a cima de tudo, uma forma de legitimação e aprovação da linha de pensamento do Governo para os sucessivos cortes em direitos e meios de subsistências da população. Seria concordar com a visão ultraliberal e insensível do actual Primeiro Ministro quando diz, talvez resultado dos seus tiques autoritárioa, que os "direitos adquiridos caem no dia que for preciso".

Como se vê, até na explicação do Primeiro Ministro que não conseguiu encaixar na mesma linha de raciocínio o corte nos subsídios de que também os pensionistas vão ser alvo, trata-se duma justificação fácil, demagógica, populista e com uma orientação que acarreta seguramente riscos para as classes mais baixas da sociedade.

Digo eu, que não percebo nada disto...


16/02/2012

Toca e foge!

Mais uma vez, assistimos ao nosso Presidente da República a jogar uma espécie de "toca e foge".


Agendada uma visita à remodelada escola António de Arroio, lá partiu o Presidente na sua comitiva escoltada pela PSP que depois de passar pela Avenida João XXI acima, diz quem se encontrava pela zona, deu uma volta de 360º regressando pelo mesmo caminho de onde vinha!
Parece que havia um qualquer problema de segurança na dita escola obrigando a comitiva a regressar para terreno seguro. O dito problema afinal era uma pequena manifestação de alunos contra medidas tomadas pelo actual Governo que o Presidente "de todos os Portugueses" preferiu evitar (para não usar outra expressão de carácter mais depreciativo). A justificação oficial, parece, foi que "um imponderável relacionado com a actividade presidencial" obrigou a uma alteração de última hora na agenda!


Uma situação bastante caricata, não tanto pelo acto de "fuga" em si, mas sim pelo "fugitivo" ser quem é!
Senão vejamos: a 9 de Março de 2011, Cavaco Silva tomava posse na Assembleia da República como Presidente, para um segundo mandato. No seu discurso inflamado, e por vezes confuso (coisa que já vai sendo habitual), o recentemente empossado Presidente, em jeito de conclusão afirmava:


"Foi especialmente a pensar nos jovens que decidi recandidatar-me à Presidência da República. A eles dediquei a vitória que os Portugueses me deram. Agora, no momento em que tomo posse como Presidente da República, faço um vibrante apelo aos jovens de Portugal: ajudem o vosso País!
Façam ouvir a vossa voz. Este é o vosso tempo. Mostrem a todos que é possível viver num País mais justo e mais desenvolvido, com uma cultura cívica e política mais sadia, mais limpa, mais digna. Mostrem às outras gerações que não se acomodam nem se resignam."


(podem confirmar a veracidade destas palavras no "Site da Verdade"!)


Pergunto eu, então, Sr. Presidente da República não foi exactamente isso que pediu aos jovens? Que fizessem ouvir a sua voz? Que não se acomodassem? Que não se resignassem? Foi isso que eles fizeram, e onde ficou a coragem para os ouvir?
Ou será que a intenção era que os jovens levantassem a sua voz e não se acomodassem ou se resignassem só até ao mês de Junho de 2011?!


Certamente perguntas que ficarão por responder por "imponderáveis" que, por alguma razão, deverão estar relacionados com actividade presidencial... isso ou então é o jogo do "toca e foge"!

11/01/2012

O carisma em que podemos acreditar


Artigo de opinião de Joseph Nye (in Publico.pt - 09.01.2012 - 18:06)




Está prevista para 2012 uma transição da liderança em duas grandes autocracias. Nenhuma das duas constitui uma surpresa. Xi Jinping deverá substituir Hu Jintao como o Presidente da China e, na Rússia, Vladimir Putin anunciou que irá recuperar a presidência que actualmente é de Dmitri Medvedev. Em relação às democracias do mundo, os resultados políticos deste ano são menos previsíveis. Nicolas Sarkozy enfrenta uma campanha de reeleição presidencial difícil em França, tal como Barack Obama nos Estados Unidos.


Nas eleições presidenciais norte-americanas de 2008, a imprensa afirmou que Obama ganhou porque tinha “carisma” – o poder especial para inspirar fascínio e lealdade. Se assim é, como é possível que apenas quatro anos mais tarde haja incerteza a respeito da sua reeleição? Poderá um(a) líder perder o seu carisma? O carisma tem origem no indivíduo, nos seus apoiantes ou na situação? As investigações académicas indicam que são os três.


O carisma revela-se surpreendentemente difícil de identificar com antecedência. Um estudo recente concluiu que “pouco” se sabe sobre quem são os líderes carismáticos. Dick Morris, um consultor político norte-americano, relata aquele na sua experiência, “o carisma é a mais ilusória das características políticas, porque não existe na realidade; apenas na nossa percepção quando um candidato é bem-sucedido graças ao seu trabalho árduo e à sua forma de lidar com os assuntos”. Da mesma forma, a imprensa de negócios tem considerado muitos CEO como “carismáticos” quando as coisas correm bem, para logo lhes retirar o rótulo quando os lucros baixam.


Os politólogos tentaram criar escalas de carisma capazes de prever votos ou índices de aprovação presidencial, mas estas não se revelaram frutíferas. De entre os presidentes dos EUA, John F. Kennedy é frequentemente descrito como carismático, mas obviamente não para todos, dado que não conseguiu conquistar a maioria dos votos populares e os seus índices de aprovação sofreram variações durante a sua presidência.


O sucessor de Kennedy, Lyndon Johnson, lamentava a sua falta de carisma. Isto era verdade no que diz respeito à sua relação com o público, mas Johnson conseguia ser magnético – e até mesmo irresistível – nos contactos pessoais. Um estudo cuidadoso de retórica presidencial concluiu que nem mesmo oradores famosos como Franklin Roosevelt e Ronald Reagan podiam contar com o carisma para cumprir os seus programas.


O carisma é mais facilmente identificado após o facto. Nesse sentido, o conceito é circular. É como o antigo conceito chinês do "mandato do céu": alegadamente os imperadores governavam porque o tinham e quando eram derrubados, era porque o tinham perdido.


Mas ninguém podia prever em que momento isso iria acontecer. Da mesma forma, o sucesso é frequentemente usado para provar – após o facto – que um líder político moderno tem carisma. É muito mais difícil usar o carisma para prever quem será um líder bem-sucedido.


Os apoiantes estão mais inclinados a conferir carisma a líderes quando sentem uma forte necessidade de mudança, muitas vezes no contexto de uma crise pessoal, organizacional ou social. Por exemplo, o público britânico não considerava Winston Churchill como um líder carismático em 1939, mas, um ano mais tarde, a sua visão, confiança e capacidade de comunicação trouxeram-lhe carisma, dada a ansiedade dos britânicos após a queda da França e a evacuação de Dunquerque. E posteriormente, em 1945, depois da atenção do público se ter desviado da vitória da guerra para a construção de um Estado-providência, Churchill perdeu as eleições. O seu carisma não conseguiu prever a derrota: quem o fez foi a mudança das necessidades dos apoiantes.


Na prática, o carisma é um sinónimo vago de "magnetismo pessoal". As pessoas variam na sua capacidade de atrair os outros e a sua atracção depende em parte dos traços inerentes, em parte das habilidades aprendidas e em parte do contexto social.


Algumas dimensões da atracção pessoal, tais como aparência e comunicação não-verbal, podem ser testadas. Vários estudos mostram que pessoas que são consideradas atraentes são tratadas de forma mais favorável do que aquelas que não são atraentes. Um estudo concluiu que um homem belo goza de uma vantagem, que vale 6-8% dos votos, sobre um rival feio. Para as mulheres, a vantagem é de cerca de dez pontos.


Os sinais não-verbais representam uma parte importante da comunicação humana e experiências simples têm mostrado que algumas pessoas conseguem ter uma comunicação não-verbal melhor do que outras. Por exemplo, um estudo da Universidade de Princeton revelou que quando foram mostradas aos indivíduos imagens de dois candidatos em eleições desconhecidas, aqueles conseguiam, sete em cada dez vezes, prever quem seriam os vencedores. Um estudo semelhante realizado em Harvard, no qual se mostravam aos indivíduos videoclipes silenciosos de 10 segundos, referentes a 58 eleições, revelou que as previsões dos telespectadores explicavam 20% da variação na votação dos dois partidos – uma variável mais poderosa do que o desempenho económico. Ironicamente, as previsões tornaram-se mais pobres quando o som foi ligado.Nas eleições de 2008, os norte-americanos ficaram desiludidos com a guerra do governo Bush contra o Iraque e com a crise financeira que estalou dois meses antes da votação. Obama era um candidato jovem e atraente, que falou bem e projectou um sentimento de esperança para o futuro. Esta foi, claramente, uma das razões pelas quais Obama conquistou uma reputação de carisma.


Mas parte do seu carisma estava nos olhos dos seus apoiantes. As pessoas às vezes dizem a respeito de carisma: "reconhecemo-lo quando o vemos", mas também estamos a olhar para um espelho. À medida que a economia piorou, o desemprego aumentou e Obama teve de lidar com os compromissos complicados de governar, o espelho ficou embaciado.


O carisma diz-nos algo sobre um candidato, mas diz-nos ainda mais sobre nós mesmos, o estado de espírito do nosso país e os tipos de mudança que desejamos. Os tempos de crise económica dificultam a tarefa de manter o carisma. Obama enfrenta os desafios contínuos do desemprego e uma oposição republicana persistente e Sarkozy vê-se a braços com problemas semelhantes. No entanto, quando estiverem em campanha, a sua retórica será libertada da necessidade de compromisso. As eleições deste ano serão o verdadeiro teste ao seu carisma.


Tradução de Teresa Bettencourt/Project Syndicate


(o original aqui)

17/12/2011

Livro: De Roma a Lisboa: a Europa em debate

"De Roma a Lisboa: a Europa em debate" trata-se de mais uma reunião de vários textos de autores que abordam o tema Europa, União Europeia, no contexto do Tratado Reformador, ou Tratado de Lisboa como ficou conhecido, em diversas áreas, coordenado por Maria Manuela Tavares Ribeiro. Desde a vertente constitucional deste tratado, passando pela cobertura jornalística que o Tratado mereceu, as relações internacionais (Cabo Verde e Colômbia), a Europa nos manuais escolares, sem esquecer, naturalmente, a sua "permanente indefinição" e o alargamento europeu.
Um trabalho que cobre diversos temas transversais da Europa:
  • "European constitutional ambitions after Lisbon";
  • "O Tratado de Lisboa: conteúdo e desafios";
  • "Comunicando a Europa: o Tratado de Lisboa";
  • "Europa: Cultura, identidade, fronteiras";
  • "Rumo aos 27: O alargamento da UE nos manuais escolares";
  • "A União Europeia e o conflito colombiano: de uma irrelevância de facto a uma irrelevância de conteúdo?";
  • "A Parceria Especial CaboVerde/UE: olhares da imprensa";
  • e "A União Europeia: um actor (político) em permanente indefinição".
Um livro editado em 2010 pela Almedina que, em alguns aspectos nele abordados, se mantém actual face aos mais recentes acontecimentos e por isso poderá ser (mais) uma ferramenta para ajudar a compreensão desta Europa: «[...] cada vez mais os Estados da União se dividem entre os que têm uma concepção da Europa como projecto político e os que perfilham uma concepção instrumental e pragmática; ao mesmo tempo que as suas agendas ("nacionais" e "internacionais") tendem a divergir»

Sinopse:

«A Europa em mutação no século XXI debate-se ainda em busca de uma ideia de si mesma enquanto projecto e realidade política. Vai-se abrindo, porém, à percepção de que a União Europeia é ainda um caminho a percorrer, mais ainda do que um ponto de destino.
E se a Europa foi fruto de um conjunto de reflexões de intelectuais, ela foi também produto de ideais teóricos, mas é um facto que deixou de ser o produto de ideais teóricos para converter-se em realidade que define o ser europeu: a razão, o direito, a democracia.
Mas nela, na Europa, podemos encontrar os contrários. Se a Europa é o direito, ela é também a força; se é a democracia também é opressão, se é razão é também mito.
Como sublinhou o europeísta suíço Denis de Rougemont, esta Europa dividida conservará o seu destino histórico comum. E ao longo dos séculos houve intentos de reconciliação em que a diversidade europeia se transforma numa unidade continental como solução para os problemas, para os confrontos, para os conflitos. Em muitos momentos da nossa contemporaneidade a Europa foi avançando em direcção oposta à unidade, a acentuar a diversidade e a fomentar a sua fragmentação - segundo as etnias, as línguas, as culturas, as religiões. Mas também é verdade que houve a preocupação em percorrer o caminho em sentido contrário, ou seja, da diversidade para a unidade.
Não se estranhará, portanto, que a unidade da Europa seja uma tarefa em construção e, por ora, inacabada.»




19/11/2011

Livro: A Construção de Estados

Neste trabalho de 2006 de Francis Fukuyama, autor que ficou conhecido por ter anunciado o fim da História, podemos, de alguma forma, encontrar a visão liberal e belicista dos Estados Unidos da América no que diz respeito à posição dos Estados no sistema internacional.
Na primeira parte de "A Construção de Estados - Governação e Ordem Mundial no Século XXI", editado pela Gradiva, o autor faz uma abordagem à dimensão e funções dos Estados, divididas em mínimas, médias e activas, tentando estabelecer relações com os níveis de eficiência das instituições públicas construindo, para o efeito, matrizes que podem conduzir à percepção, errada, da simplicidade em delinear e definir a força e o alcance das funções do Estado. Na segunda parte é defendida a ideia de Estados fracos e Estados falhados apresentando-os como o problema para a paz e a segurança dos Estados e Continentes. É com base nessa definição deste tipos de Estados que o autor justifica, na terceira parte do seu trabalho e de forma implícita, a posição norte americana na visão dos Estado soberano e na sua legitimidade para assumir posições de força na resolução de conflitos internacionais e a tentativa de imposição de democracias noutras nações. Afinal, como diz o autor quando apresenta as diferenças entre os EUA e a UE no que respeita à legitimidade das instituições nacionais e internacionais, não esqueçamos, por exemplo, que os EUA não reconhecem ainda o Tribunal Penal Internacional, não se escusa de recorrer a Robert Kagan para defender a sua posição: «Os europeus são aqueles que realmente crêem viver no fim da História - isto é, num mundo em grande parte pacífico que pode ser cada vez mais governado pela lei, por normas e por acordos internacionais. [...] Os americanos, pelo contrário, pensam estar ainda a viver na História, e precisam de utilizar os meios do poder político tradicional para lidar com as ameaças do Iraque, da al-Qaeda, da Coreia do Norte e de outras forças malignas.» É por isso que, e contextualizando a obra em 2006, três anos depois do início da guerra do Iraque e da captura e execução de Saddam Hussein, e de já se saber do logro das armas de destruição em massa que serviu de justificação para o conflito, o autor defende que «Se os Estados Unidos fizeram, ou não, a abordagem correcta no caso do Iraque é uma questão em aberto, mas não deveríamos deixar que as circunstâncias específicas deste caso afastassem a atenção do facto de haver um desequilíbrio potencialmente grave entre a exigência de segurança num mundo de Estados fracos ou falhados e a capacidade das instituições internacionais para a assegurar.»


Um livro para reler daqui a algum tempo, com mais calma e atenção.


Sinopse:


«Francis Fukuyama tornou-se conhecido por prever a chegada do «fim da História», com o predomínio da democracia liberal e do capitalismo global. O tema do seu último livro é, por isso, surpreendente: a construção de novos Estados-nação. O fim da História nunca foi visto como um processo automático, afirma Fukuyama, e as comunidades políticas bem governadas foram sempre a sua condição necessária. «Os Estados fracos ou falhados são fonte de muitos dos mais graves problemas existentes no mundo», afirma. Nesta obra, sistematiza o que sabemos - e, sobretudo, o que não sabemos - sobre como criar instituições públicas bem-sucedidas em países em vias de desenvolvimento, de forma que estas beneficiem os seus cidadãos. Trata-se de uma lição importante, especialmente numa altura em que os Estados Unidos se confrontam com as suas responsabilidades no Afeganistão, no Iraque e noutros locais.
Fukuyama inicia A Construção de Estados com uma descrição da enorme importância conquistada pelo «Estado». Rejeita a noção de que possa haver uma ciência da administração pública e analisa as causas da actual fraqueza do Estado. Termina o livro com uma discussão sobre as consequências que a existência de Estados fracos pode ter na ordem internacional e sobre as condições que legitimam a intervenção da comunidade internacional em apoio daqueles»

21/10/2011

As certezas do desconhecido

Não podemos ficar indiferentes aos recentes acontecimentos na Líbia. Seja em relação à chacina da população nas mãos dum ditador, seja em relação a todo o "processo" da captura e morte desse mesmo ditador, Muammar Gaddafi (que por cá chamámos Kaddafi).


Os actos de barbárie do ser humano, ainda que sejam fáceis de despoletar e com um rastilho muito curto, agravando-se quando inserido num grupo, não são, na minha perspectiva, normais. São parte do comportamento animal e consequentemente do comportamento humano, mas a sociedade, e sem entrar nas teorias de Hobbes e Lock, encarregou-se de considerar esse comportamento, que Freud considera uma predisposição inata, como inaceitável - ou pelo menos assim aconteceu numa enorme larga maioria de sociedades.


Mas pior do que as imagens divulgadas do corpo de Gaddafi arrastado pelas ruas nas mãos duma multidão eufórica, que agora se diz que afinal não foi morto em fogo cruzado na sequência dum ataque da NATO mas sim numa execução sumária, são as vozes de responsáveis políticos internacionais que já vieram à praça rejubilar com o sucedido.
Ainda que compreendamos que a queda dum déspota pode ser um ponto de partida para um novo período da história, a sua morte e o seu corpo não devem ser usados como bandeira da Liberdade! è que o futuro, ninguém o conhece.
Bem fez Barack Obama ao recusar divulgar imagens do corpo de Ossama Bin Laden. Se o mandatário do assassínio de milhares de pessoas efectivamente morreu no seguimento da tentativa de captura (e aqui poderíamos entrar noutra discussão que também seria interessante), o assunto fica encerrado e fim da história. Novo começo.


O mais perigoso é quando usamos este tipo de bandeiras para fazer "futurologia". Parece-me que o entusiasmo pela morte de alguém que deveria ser preso, com direito a um julgamento justo e pagar todas as atrocidades que fez a milhares de pessoas, acaba por cegar algumas pessoas.
Se olharmos para o comunicado conjunto do Presidente da Comissão Europeia e do Presidente do Conselho Europeu e também para a certeza de Hillary Clinton vemos que o futuro está traçado: é «o início de uma nova era»! Está dito e mais que visto!
Na verdade é, de facto, o início dum novo período na história da Líbia mas, nem estes políticos, nem o povo da Líbia sabem o que os reserva. Não sabemos se a morte desta pessoa vai ser, como já anunciaram, o melhor para o futuro da Líbia e da sua população. Não sabemos se a morte desta pessoa vai contribuir para um caminho de "liberdade" e "mais democrático". Não sabemos, e pronto!


Hillary Clinton disse em 2003, quando ainda disputava o lugar de senadora, que a captura de Saddam Hussein poderia contribuir para a estabilidade e para a paz no Iraque. O homem foi enforcado (nova barbárie, mas legalizada!!) e o Iraque continua em pé de Guerra.
Ossama Bin Laden foi morto, e o Afeganistão continua em guerra.
Mubarak foi preso, está a ser julgado, e o Egipto continua a ferro e fogo.
A Tunísia deitou a baixo Ben Ali, outro ditador, e ainda não se conseguiu endireitar apesar de ter já as eleições marcadas - existem ainda focos de conflito social.


Mas será que a história ainda não nos ensinou nada? Ou talvez sejam optimistas quanto ao futuro, acreditando na ideia de Robert Bailey: «a sociedade é composta por indivíduos que, sendo racionais ou capazes de se tornarem racionais, hão-de impulsionar a humanidade para novos níveis de civilização.».
A questão é que quando há um sentimento optimista podemos ser sempre confrontados com a visão pessimista da mesma situação: «a sociedade é composta de massa que, sendo não racionais e facilmente influenciáveis hão-de reduzir a humanidade à mediocridade.»


Quanto ao futuro, só o tempo o dirá...




ADENDA (23.10.2011) - A recusa, ainda que não se conheçam os fundamentos, do Conselho Nacional de Transição em realizar uma autópsia ao corpo de Gaddafi, ainda para mais quando já foram divulgados vídeos que o mostram vivo e capturado contrariando a "versão oficial", não augura nada de bom para a Líbia que se segue...

20/10/2011

A estupidez devia pagar imposto

Se a estupidez pagasse imposto talvez os nossos sacrifícios não tivessem que ser tão grandes. E este iluminado estaria num dos escalões de contribuição mais elevados: José Manuel Fernandes!



Diz JMF: «Eu fechava amanhã a RTP Informação»

Pois se fosse eu, mandava erradicar amanhã todos os estúpidos da crosta terrestre... Mas José Manuel Fernandes está com sorte porque eu não tenho esse poder!

É preciso que se saiba que fechar qualquer serviço público de televisão ou rádio é entregar nas mãos de privados e grupos económicos, neste caso ligados à informação, o controlo sobre aquilo que nos entra pela casa a dentro.
Basta que olhemos o que se passa, esse triste cenário, com os canais generalistas. A RTP tornou-se, nesta fase, o refúgio daqueles que não se querem evangelizar com a ignorância e o espectáculo degradante em que se tornaram os canais generalistas privados (tanto na área noticiosa como na do entretenimento), em particular, com os seus "reality show's" - mas há mais exemplos nas grelhas de programação.

O desaparecimento dum canal de informação público, ainda que com manifestos problemas no funcionamento (que seguramente podem ser melhorados), é autorizar de forma implícita que através dos grupos de  interesses meramente económicos a informação nos entre pela casa a dentro já digerida e em forma de opinião.
Será um benefício para quem prefere usar e defender ideias já processadas por cabeças terceiras, muito mais fácil, portanto, mas uma séria dor de cabeça para quem gosta de diversificar as fontes de informação para formular as suas próprias conclusões.

Já agora, e não se aplicando em concreto ao canal público de informação, por falar em privatizações, é importante não esquecer o nº 5 do art.º 38 da CPRP quanto à necessidade de um serviço público de rádio e TV para assegurar a «Liberdade de imprensa e comunicação social»:
«O Estado assegura a existência e o funcionamento de um serviço público de rádio e de televisão.»

Por isto e por muito mais, não sou defensor de qualquer privatização do serviço público de TV's ou rádios...
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