Mostrar mensagens com a etiqueta opinião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta opinião. Mostrar todas as mensagens

03/06/2016

Livro: A falácia do empreendedorismo

Apesar de Adriano Campos e José Soeiro, os autores deste livro, se apresentarem como sociólogos, e académicos (o primeiro doutorando e o segundo doutorado), a julgar pelo título poderíamos entender, como leitores, que este livro se trata de um trabalho de economia dada a assumpção desta disciplina (1) com a palavra da moda: "empreendedorismo". Na verdade, entendo, trata-se de um escrito político e marcadamente ideológico (neste caso à esquerda). E pode assumir-se essa marca ideológica porque o "empreendedorismo" é também ele um movimento (expressão minha) ideológico (neste caso, visto como um movimento liberal, à direita). Ele tem impacto social tremendo, seja ao nível da inclusão, da educação, das relações laborais e financeiras.

Mas independentemente da carga ideológica que este trabalho possa acarretar para quem o lê (mais ou menos acentuada, dependendo da posição em que o leitor se situe no espectro político), ele cumpre o seu objectivo primário: expor alguns dos mitos ligados ao empreendedorismo e expor alguns dos seus efeitos nefastos.

N'«A falácia do empreendedorismo» é possível encontrar uma clara relação desta visão liberal, assumindo o risco da expressão, e da sua evangelização como solução para muitos dos problemas sociais, como o desemprego, ou como veículo para alcançar níveis de bem ou estatuto social superiores, com:

  • a perda das relações laborais e deterioração das condições de trabalho (precariedade);
  • a evolução (aumento) do desemprego, a perca de direitos e protecção social, e avesso à protecção laboral;
  • a discriminação no acesso a incentivos e apoios ao "empreendedorismo" - nomeadamente o caso português onde esta discriminação é feita ao nível académico e etário;
  • a diferenciação (pela negativa) e discriminação na capacidade de acesso a fontes de financiamento para ideias inovadoras;
  • a durabilidade dos projectos resultantes destas ideias (quando financiadas);
  • a visão individualista e egocêntrica implícita ao movimento "empreendedor";
... entre outras.


Mas para além destas relações que o livro tenta evidenciar, e que ao leitor mais atento possa parecer como uma inversão de toda uma lógica evolutiva e construída durante séculos (e vejam-se, por exemplo, os paralelismos que se podem, eventualmente, estabelecer entre o tão aclamado "empreendedorismo" do século XXI e aquele que foi considerado o "empreendedorismo" proporcionado pela Revolução Industrial com início no século XVIII), podem ainda encontrar-se alguns paradoxos entre a realidade e a ilusão do "empreendedorismo".

No momento em que começam a surgir vozes que defendem que não são os melhores alunos que têm as ideias mais inovadoras e passíveis de maior sucesso, estabelecem-se critérios de acesso a apoios e incentivos que passam pelos níveis académicos dos putativos "empreendedores"?

Como encarar a visão do movimento "empreendedor" como a solução para as crises (financeiras e sociais, maioritariamente provocadas pela liberalização e desregulação dos mercados e das relações) em que mergulharam (e por lá permanecem mergulhados) os países e sociedades consideradas mais desenvolvidas quando é nos países ou sociedade menos desenvolvidas que encontramos a proliferação de "empreendedores" e trabalhadores por conta própria e nas quais não se perspectiva, com isso, um fortalecimento das relações e protecção laboral ou social, nem sequer um aumento do bem-estar e desenvolvimento (diferente de "crescimento") económico? (2)

E estas são só algumas das perguntas que, ao ler este livro, um leitor mais crítico poderá colocar.
Definitivamente, e uma vez mais, independentemente da visão e percepção ideológica de cada um sobre o tema, este é um trabalho que merece ser lido. 


(1) Prefiro o uso de "disciplina" quando me refiro a Economia em vez de "ciência". Esta preferência acompanha a ideia expressa, e muito bem explicada, por Ha-Joon Chang em «Economics: The User's Guide»: "Economics is a political argument. It is not - and can never be - a science."

(2) Ver «Economics: The User's Guide» ou «23 Things They Don't Tell You About Capitalism» de Ha-Joon Chang (http://hajoonchang.net/). Ver ainda «The Determinants of Entrepreneurship at the Country Level: A Panel Data Approach» de Gonçalo Brás e Elias Soukiazis (disponível em http://www.uc.pt/feuc/gemf/working_papers/pdf/2015/gemf_2015-14)



Sinopse:

Empreendedorismo. Saída para a crise de emprego? Nos últimos anos, o empreendedorismo tem-se apresentado como a saída para a crise do emprego. Multiplicaram-se programas públicos de apoio e promoção do empreendedorismo. O tema entrou nos currículos de todos os níveis de ensino, havendo até workshops de «empreendedorismo para bebés». O «espírito do empreendedorismo» foi acolhido nas políticas sociais e desenvolveu-se uma rede de instituições, plataformas e encontros destinados a disseminá-lo. Neste livro, dá-se conta deste processo, dos mitos que lhe estão associados e dos resultados concretos alcançados. Sabia que a totalidade das medidas de apoio ao empreendedorismo, nas quais foram investidas centenas de milhões de euros, chegaram apenas a 1% dos desempregados oficialmente inscritos? Sabia que os países onde há taxas mais elevadas de autoemprego não são os países com economias mais inovadoras, mas sim onde há mais pobreza, como o Vietname ou o Bangladesh? Sabia que a herança, e não o mérito e o esforço individual, tem um peso cada vez maior na acumulação de riqueza na nossa sociedade, ao contrário do que sugere o discurso do empreendedorismo? De Steve Jobs a Oprah Winfrey, de Miguel Gonçalves ao Shark Tank, aqui encontrará as histórias de encantar do empreendedorismo. Mas também o outro lado desta narrativa. Não estarão a vender-nos uma falácia?

30/03/2016

Jornalismo circense

Aquilo que deveria ser a notícia sobre um acontecimento grave tornou-se numa amostra do crescente jornalismo circense em Portugal.
Mas contrariamente à coragem demonstrada por trapezistas ou domadores de feras, à destreza e agilidade de malabaristas, ou subtiliza de encantadoras de serpentes ou contorcionistas, aquilo que a comunicação social portuguesa (ou uma boa parte dela, a mais visível, pelo menos) mostrou sobre o grave acontecimento na Ameixoeira, foi a descoordenação motora e verbal dos palhaços, o ridículo e a ignorância dos bobos e a racionalidade de um equídeo ou dum paquiderme cheio de lantejoulas.

Aquilo que simplesmente podia ter sido resumido como:
«No bairro da Ameixoeira [o onde] ocorreu uma troca de tiros [o como] entre famílias, alegadamente rivais, que obrigou à intervenção policial e da qual resultaram cinco feridos, três dos quais polícias da PSP [o quê]. As causas da ocorrência ainda estão por apurar [o porquê].»
foi transformado num triste espectáculo (televisivo) de sucessivos e contínuos "directos", cheios de contradições, num exercício de especulação, suposições e adivinhação - ora se falavam em mortos, ora se falavam em feridos, ora se falava "num casal de civis" ou se diziam "mulheres feridas". Procuraram-se entrevistas junto de moradores que, quando não respondiam "não moro cá no bairro, só vim ver o que se passava, sou do Lumiar", conseguiram testemunhos que diziam uma coisa e logo o seu contrário. Filmaram-se pessoas que pediam para não ser mostradas ou que não queriam falar - a uma dessas pessoas, às quatro perguntas feitas por uma jornalista - sim, quatro insistências! - a resposta foi sempre a mesma: "não quero dizer nada".

A acompanhar o pouco ou nada que se via nas imagens em directo, ouviam-se entusiasmados jornalistas (?!) falar em rusgas em prédios que os surpreendiam porque "os polícias tocaram às campainhas" para entrarem nos prédios à procura de pessoas - havia  uma profissional que repetidamente se referia à presença duma "polícia musculada", o que, pela insistência (e quase inexistência nas imagens) me deixou na dúvida se haveriam agentes da UEP a rachar ou a partir cabeças ou se se tratava de algum fetiche.
A um dos moradores que explicou que havia aberto a porta da sua casa à polícia para que estes entrassem, a preocupação da jornalista (!?) era a de saber se a porta teria sido arrombada ou a entrada forçada. Uma inglória busca por sangue, suor e lágrimas - ou qualquer discurso de ódio - que terminou com esse morador a dizer-lhe "minha senhora, não me leve a mal, eu só posso dizer-lhe o que sei. Não lhe vou dizer o que não sei, está bem?".

Mas enquanto o circo e o espectáculo do ridículo já estava armado na Ameixoeira, outra tenda circense se levantava à porta do Hospital de Santa Maria. Ali, jornalistas (!?) mostravam o seu constante desagrado por terem sido deixados do lado de fora "enquanto as famílias podiam entrar mas ficavam no relvado, inclusivamente com crianças e bebés de colo". Entanto bradavam a sua desgraça por não poderem andar a passarinhar pelo hospital dentro a filmar tudo e todos, mesmo aqueles que não quisessem ser filmados ou que nada tinham a ver com a situação, as imagens mostravam as "várias famílias" ao longe e as crianças... por vezes a correr e a brincar (como só as crianças têm a capacidade de fazer, mesmo em momentos duros e de grande tensão!).
Entrava-se em directo com introduções do género "um familiar não quis dar a cara mas disse-nos que uma das vítimas foi atingida pela polícia" mas quando a esse familiar se perguntou "como sabe que foi a polícia?" a resposta foi "disseram-me umas pessoas lá daquele bairro".

Mas se poderíamos julgar que a característica circense é exclusiva do imediatismo das televisões, repare-se na imprensa escrita.
A fome desta comunicação social portuguesa por algo catastrófico e dramático é tanta que um jornal, sobre os cinco feridos (três dos quais já tiveram alta e dois permanecem internados mas em situação estável), faz uma chamada de capa que contraria toda e qualquer regra e código jornalístico: «Mulher morta e três polícias feridos. Tiroteio na Ameixoeira fez ainda mais dois feridos graves.»


Mas poderíamos dizer que tudo isto que, em minha opinião, contribui para colocar todos no mesmo saco da incompetência - os maus e os bons jornalistas - era o resultado de se entregarem microfones e câmaras a jovens jornalistas/estagiários mal preparados e pouco familiarizados com as regras jornalísticas e o código deontológico, mas, infelizmente, neste caso viram-se novos e "velhos".
Poderíamos ainda dizer que tudo isto se havia passado naquilo a que chamam "Correio da Manhã" - pasquim e canal de tv -, mas, infelizmente, neste caso foi também na SIC/SIC Notícias, TVI/TVI24 (e em menor escala na RTP1/RTP3), e o jornal em questão é o "jornal i".
Poderíamos, por fim, dizer que tudo isto se tratou dum circo (no seu sentido mais pejorativo) mediático isolado, mas, infelizmente, está a tornar-se prática comum.
E esta é a prática "Correio da Manhã" que, parece, está a transformar-se numa escola da comunicação social em Portugal.




01/02/2016

Livro: The Glass Cage

The Glass Cage: How our computers are changing us, de Nicholas Carr, não deve ser entendido como um livro "anti-tecnologia" ou um manifesto contra o uso, cada vez maior, das Tecnologias de Informação e Comunicação no nosso dia-a-dia. The Glass Cage traz à luz vários trabalhos que pretendem mostrar o efeito, nem sempre benéfico, das tecnologias.

É incontestável que as tecnologias estão cada vez mais enraizadas na vida de todos nós, alterando processos e relações sociais. Mas se é compreendido que estas acarretam alguns benefícios sociais e de bem-estar, não são suficiente e devidamente encarados os aspectos menos positivos da sua dependência, em especial os resultantes da automatização.

Na óptica de Nicholas Carr, e dos autores cujos trabalhos são citados, através da automatização de processos, sejam eles fabris, de serviços ou mesmo de apoio à tomada de decisão (selecção de informação decorrentes de algoritmos e/ou selecção ou construção de padrões), estão a criar-se condições para um distanciamento do Homem em relação ao Conhecimento. Chama-nos a atenção que a partir do momento em que o Homem assume o papel apenas de controlador da tecnologia - onde apenas tem que verificar ou controlar o bom funcionamento do processo automatizado - deixa de desenvolver ou possuir uma curiosidade sobre o próprio processo: o seu porquê e o como. Estes cenários empíricos, que indiciam uma espécie de retrocesso civilizacional na aquisição de competências, assentam na tónica de que esta aquisição, ao longo de vários séculos - ou mesmo milénios -, decorre da capacidade do ser humano aprender através da execução e superação de desafios, isto é, a tentativa e falha - learn by doing.

«Automation severs ends from means. It makes getting what we want easier, but it distances us from the work ok knowing. As we transform ourselves into creatures of the screen, we face the same existential question that the Shushwap confronted: Does our essence still lie in what we know, or are we now content to be defined by what we want?»

O livro de Nicholas Carr, e os estudos que nele são mencionados, não advogam que devamos rejeitar liminarmente a tecnologia e o seu desenvolvimento. Apenas nos alerta para que a adopção das tecnologias seja cautelosamente pensada e avaliada por todos os prismas. A sua implementação e apropriação deve ser analisada em termos de facilitação e bem-estar, mas não deve ser descurado o seu verdadeiro e mais profundo impacto social.


Sinopse:

«In The Glass Cage: How Our Computers Are Changing Us, his widely praised follow-up to the Pulitzer Prize-nominated The Shallows, bestselling author Nicholas Carr explores how our ever growing dependency on computers, apps, and robotics is reshaping our jobs, talents, and lives.
Digging behind the headlines about artificial intelligence and self-driving cars, digitized medicine and workplace robots, Carr explores the hidden costs of granting software dominion over our work and our leisure. Drawing on studies that underscore how tightly our sense of happiness and personal fulfillment is tied to performing skilled work in the real world, he reveals something we already suspect: shifting our attention to computer screens can leave us disengaged and discontented. Our lives may be easier inside the glass cage, but something essential is missing.

From doctors’ offices to the cockpits of passenger jets, from the frozen hunting grounds of Inuit tribes to the sterile landscapes of GPS maps, The Glass Cage explores the impact of automation from a deeply human perspective. Mixing history and philosophy, poetry and science, the book culminates in a moving meditation on how we can use technology to expand the human experience rather than narrow it.»

28/01/2016

Livro: Politica e Entretenimento

José Santana Pereira neste ensaio, "Política e Entretenimento", reúne um conjunto de teorias, por vezes antagónicas, sobre o impacto nos cidadãos das relações entre a política e a comunicação social, nomeadamente, com a utilização da política em programas de entretenimento.
São diversos os autores que defendem a existência duma aproximação e maior esclarecimento dos cidadãos em relação a temas políticos através dos programas de entretenimento - concursos, reality shows ou de humor - bem como aqueles que defendem o seu contrário.

Certo da existência desta relação entre política e entretenimento, e neste trabalho ficam bem claras as evidências históricas de políticos que se tornaram "celebridades" do audio-visual, bem como pessoas ligadas ao "mundo do espectáculo" que se transformaram em políticos e poderosos lideres, não é consensual o seu impacto nos cidadãos, nos eleitores e nas próprias sociedades ao nível político.

Este é um ensaio interessante de se ler e que pode contribuir para uma discussão e reflexão premente na sociedade actual: que poder exerce o entretenimento e a comunicação social na política dos países e, consequentemente, que influência tem nas decisões com impacto no dia-a-dia dos cidadão?


Sinopse:

«A política é divertida? Em que medida é que os temas e os protagonistas políticos foram adoptados ou apropriados pelos programas de televisão não informativos, com que objectivos e com que consequências? Como e porque é que os líderes partidários se tornaram personalidades com características de celebridades do mundo do espectáculo, e quais as consequências deste fenómeno? Até que ponto é que a dependência dos meios de comunicação social tradicionais como fonte primordial de informação política tem vindo a transformar os cidadãos em meros espectadores? Este ensaio tem como propósito debater estas e outras questões relativas à relação, cada vez mais íntima, entre as esferas da política e do entretenimento, com o propósito de estimular o debate e o pensamento crítico a respeito deste fenómeno incontornável nas sociedades democráticas.»

25/01/2016

Acreditar na Democracia

Portugal (ou uma pequena parte dele!) votou.

Os resultados estão apurados. O exercício democrático cumpriu-se sem problemas de maior (salvo um boicote numa freguesia e o impedimento de alguns cidadãos no estrangeiro exercerem o seu direito) e com respeito cívico, e isso é sempre de saudar.

Pela primeira vez na sua história, Portugal contou com uma dezena de candidatos a Presidente da República. Uns mais à séria, outros menos. Uns mais políticos, outros nem tanto. Uns mais populistas e demagógicos, outros mais "terra-a-terra" com a realidade e as necessidades dos portugueses.
Tudo isto mostra um aparente amadurecimento da Democracia em Portugal - um amadurecimento que, ainda assim, não dá plenas garantias de consolidação, especialmente pelo crescente e galopante alheamento dos cidadãos em relação à política e àquilo que os governa (uma tendência que se iniciou há muitos anos e cujas razões não vou, agora, discutir).

A partir de 9 de Março de 2016 teremos um novo Presidente da República. Sobre o que dele se espera, ou sobre a sua imprevisibilidade, muitos já falaram. Sobre o que eu acredito que será Marcelo Rebelo de Sousa no exercício do cargo, também já o disse e escrevi. Citando alguém com quem discordo em praticamente tudo, espero mesmo, mas muito mesmo, que ele me "surpreenda".

Mas, não obstante aquelas que sãos as diferenças ideológicas e idiossincráticas de cada um, continuo a gostar e a acreditar piamente na Democracia. Pois com as decisões que nela se tomam, vêm também as consequências.

A luta faz-se todos os dias.

03/11/2015

A discussão faz-se de ideias

Quanto às presidenciais, o meu apoio é mais do que óbvio e está declarado.
Não tenho quaisquer dúvidas que é Sampaio da Nóvoa o candidato necessário para responder às exigências que se adivinham para o próximo Presidente da República.
Claro de ideias e esclarecido nas propostas, e todas elas tornadas públicas há muito tempo de forma continuada para que todos possam fazer a sua escolha informada, Sampaio da Nóvoa é a antítese daquilo que foram estes últimos 10 anos de Cavaco Silva como Presidente da República.

Mas mesmo consciente das minhas convicções e ideais, esclarecido quanto às opções e certo daquilo que quero para o futuro, nada me impede de ouvir os restantes candidatos, bem como conhecer as suas ideias e propostas. Entre uns mais conhecidos do que outros, uns "políticos" outros nem tanto, procurei, muitas vezes sem encontrar, tudo o que pudesse ser visto, lido e ouvido sobre a visão dos restantes candidatos já declarados - mais 19 para além de Nóvoa.

E foi no âmbito dessa tarefa que consultei também o site da outra candidatura, dita de esquerda, que recolhe mais atenção por parte da comunicação Social - Belém 2016, lançada a 13 de Outubro (há 22 dias, portanto).

E infelizmente, à semelhança do que sucedeu quando procurei informação sobre outros candidatos menos fotogénicos ou menos interessantes para parangonas de jornais, também neste caso continuo sem conhecer uma ideia, uma visão, uma proposta da candidata Maria de Belém. Consultando o seu site oficial de campanha, ao visitante apenas é disponibilizado um único link para os documentos necessários para a propositura da candidatura. Sem ideias públicas e expressas passíveis de serem consultadas por este meio, parece que esta candidatura pede ao visitante, a poucos meses das eleições e numa fase muito crítica para Portugal, uma "assinatura em branco".




Tendo escutado algumas das suas declarações, sobre a actualidade política, como «não gostaria de me pronunciar sobre isso» ou «não posso comentar porque não estou na posse de toda a informação que o actual Presidente da República dispõem», não gostaria de acreditar que este é o reflexo desta candidatura, da forma como foi precipitada e lançada: um enorme vazio de ideias.

Poder-se-á, no entanto, dizer que o vídeo na única página do site poderá (poderia!) ser uma ajuda ao esclarecimento do visitante e que este terá através do meio audiovisual disponível um cabal esclarecimento do que pretende ser esta candidatura a quando o hipotético exercício do cargo. Mas não!

Não sendo um conhecedor em técnicas de comunicação (embora tenha, momentaneamente estudado marketing político), o vídeo causa alguma estranheza pois salta à vista uma imitação - e mal feita, diga-se - do "O" da campanha de Obama às presidenciais dos EUA em 2012 e ainda mais o facto do movimento das linhas com as cores da bandeira nacional se deslocar para o interior do "O" (zero, neste caso) - cuidado com a semiótica: é que, aos eleitores, pode estar a ser dado um sinal de entrada para o desconhecido... 



Mas imagens à parte: ouve-se um discurso, para além de editado (estranho corte aos 9 minutos e 38), com muitos lugares comuns e mensagens inócuas, no qual se esperaria ouvir e conhecer mais. Esperar-se-ia uma apresentação clara de princípios e de compromissos.
Afinal, trata-se de uma candidatura ao cargo de Presidente da República, de alguém que «não nasceu hoje para a política», e não de uma candidatura a um cargo de auditoria de defesa nacional...!

Não basta citar a Constituição da República Portuguesa, ou falar nos feitos históricos de Portugal. Não chega apenas a apresentação de um Curriculum Vitae com os cargos e (algumas) posições ocupadas no passado - é que não se pode começar por dizer que o cargo exige independência e capacidade para estabelecer pontes para depois apresentar como evidência da sua «maturidade e visão políticas» uma carreia politico-partidária. E até aí, muito há que se lhe diga no que toca à gestão independente de situações partidárias.

Mas a cima de tudo, não chega fazer-se um discurso cheio de retórica, apresentar uma candidatura quase como um chamamento pelo bem e glória dos portugueses, para depois dizer que «o mandato é claro», que «o programa do Presidente da República é a Constituição».
Enganam-se, e enganam, aqueles que assim pensam. A discussão faz-se de ideias.


08/10/2015

Livro: Cuidar do Futuro - Os Mitos do Estado Social Português

Pedro Adão e Silva e Mariana Trigo Pereira apresentam neste livro um conjunto de evidências que ajudam a desmontar vários dos mitos que se criaram em torno do "Estado Social" em Portugal.
Ideias enraizadas na narrativa do cidadão comum, originárias, muitas vezes, na luta político-partidária, de que as prestações sociais representam uma enorme despesa para o Estado, que em Portugal a despesa com pensões é das mais elevadas da U.E., da insustentabilidade da Segurança Social ou do peso que representam as famosas "pensões milionárias" (0,1%!) e o RSI para o Estado Social, são desmistificadas neste interessantíssimo trabalho. Também nele se demonstra a importância que representa (ou representou) o Complemento Solidário para Idosos no combate à pobreza entre os seniores em Portugal.

"Cuidar do Futuro - Os Mitos do Estado Social Português", editado pela editora Clube do Autor, trata-se de um livro que contém uma mensagem que deveria ser amplamente divulgada por forma a corrigir algumas da mentiras e mitos que foram propositadamente criados e, na maior parte das vezes, inconscientemente propagados ao longo do tempo em torno do Estado Social.
É, seguramente, um livro cuja leitura se recomenda vivamente.


Sinopse:

«O Estado Social está no centro do debate político em Portugal. É urgente fazer escolhas e tomar decisões fundamentais sobre o nosso futuro.

Será justo estar a pagar tanto para as pensões dos outros?
Pode não haver dinheiro quando me reformar?
Os políticos usam a despesa social para ganhar eleições?

Numa linguagem acessível dirigida a um público não especialista ,são desmontadas algumas ideias pré-concebidas que existem em torno do Estado Social português. Sem um entendimento informado e partilhado seremos incapazes de fazer face às verdadeiras causas que impedem a sustentabilidade do Estado Social.»


12/07/2015

Os Porquês da Esperança

O «entrevistado», sendo ele um cientista social, aceitará certamente que nem sempre concorde (ainda que muito poucas vezes!) com algumas das leituras que faz, especialmente no capítulo "as políticas" (afinal, é essa a maravilha da liberdade de pensamento e ideológica), mas "Os Porquês da Esperança" merece ser lido por se tratar duma conversa entre duas pessoas inteligentes que não pretende apresentar ao leitor qualquer dogma! É sim, um ponto de partida pelas ideias que deixa para discussão.
Como disse o próprio, «Mas um livro é para dizer! É para pensar além da circunstância imediata e sonhar futuros que não estão necessariamente inscritos no curso normal das coisas».

Lançado no dia 7 de Julho, é um livro que, pela forma da escrita, agarra o leitor interessado nestes temas.

Sinopse:

«QUE DESAFIOS ENFRENTA PORTUGAL?
PARA ONDE CAMINHAMOS E COM QUE ESTRATÉGIA?
É POSSÍVEL ACREDITAR NUM FUTURO MELHOR?

Um ano depois de a troika ter deixado o país, é importante perceber para onde dirigir a «nave pátria» em tempos que se esperam exigentes. Augusto Santos Silva e Paulo Magalhães fazem uma análise detalhada dos nossos recursos, das escolhas a fazer, da mudança a operar e da importância crucial de ter uma liderança competente.

QUAIS SÃO OS NOSSOS BLOQUEIOS?
TEREMOS JÁ PERDIDO DEMASIADO TEMPO?
SEREMOS MAIS DO QUE A LUSOFONIA?
PARA QUE HORIZONTES DEVE OLHAR O NOSSO PAÍS?
O QUE SE DEVE ESPERAR DE UM NOVO CICLO POLÍTICO?
UM LIVRO QUE AJUDA A COMPREENDER PORTUGAL PARA ALÉM DA ESPUMA DOS DIAS, À LUZ DA POLÍTICA, DA SOCIOLOGIA E DOS ACONTECIMENTOS QUE MARCARAM OS ÚLTIMOS ANOS.»

Matéria-Prima Edições



03/07/2015

Os Homens, os gaviões, a Europa e a morte do um sonho

Accipiter nisus (Gavião da Europa)
No seguimento das convulsões (recuos!) vividas no seio da União Europeia de há umas semanas para cá (meses! ou mesmo anos!), há uns dias "recuperei" um texto publicado em 2011, de Alberto Regueira intitulado "O que os últimos vinte e cinco anos fizeram à minha ideia de Europa".
Nele, uma passagem dita assim:
«[...] onde pára a ideia da Europa, sessenta anos depois dos seus "pais fundadores"?
Em boa verdade, afigura-se de morte, essa partitura inspirada, complexa e empolgante colocada nas mãos canhestras de executantes de quinta ordem. Não é impossível que venha a encontrar uma segunda oportunidade - quase nada é impossível neste mundo! - mas é preciso uma boa dose de cândido optimismo para se acreditar no que começa a tornar-se uma "história da carochinha"

[...]
Como certos casamentos que sobrevivem ao seu período de validade [...] há interesses materiais que comandam a continuidade para além do vazio e da rotina.
O sonho é que morreu.
» (1)

Estes parágrafos bastante assertivos, e bastante actuais, diga-se!, não tanto pela alusão directa que lhe faz mas mais pela referência a uma transformação da ideia inicial de Europa unida (ou a ilusão da sua existência primária), rapidamente me transportou até ao famoso romance filosófico escrito no séc. XVIII pelo parisiense François-Marie Arouet:
«[...] - Acreditais, disse Cândido, que os Homens sempre se tenham massacrado como hoje em dia, que sempre tenham sido mentirosos, tratantes, pérfidos, ingratos, bandidos, frouxos, frívolos, cobardes, invejosos, gulosos, bárbaros, avaros, ambiciosos, sanguinários, caluniadores, debochados, fanáticos, hipócritas e tolos? - E vós, disse Martinho, acreditais que os gaviões tenham desde sempre comido pombos quando os encontravam? - Sim, sem dúvida, disse Cândido. - Pois bem! disse Martinho, se os gaviões sempre tiveram o mesmo carácter, por que razão querereis que tenham os homens mudado o deles?» (2)

Entre Homens e gaviões, há uma Europa que se está a transformar... estaremos nós perante o assassinato do sonho, ou da descoberta do verdadeiro carácter daquilo que a governa?


(1) in "25 anos na União Europeia, 125 reflexões", coord. Eduardo Paz Ferreira
(2) in "Cândido ou o optimismo", Voltaire 

29/06/2015

Sim, mas...

A recente alteração no cargo de Presidente (não confundir com Secretário-Geral) do Partido Socialista veio acrescentar uma maior assertividade na mensagem política socialista. Nem sempre concordando com as posições de Maria de Belém Roseira, reconheço-lhe um trabalho positivo mas discreto no exercício da presidência do PS. Já Carlos César, talvez pela sua vasta experiência política e governativa, adopta uma postura menos discreta e mais interventiva. Mas também nem sempre estou de acordo com aquilo que defende.
É esta a maravilha da democracia e liberdade política e de expressão que muitos, de há uns tempos para cá, parecem ter vindo a esquecer ou a menosprezar.


As declarações de Carlos César, em certo sentido, são inegáveis mas só se as quisermos enquadrar no seu verdadeiro contexto e admitir uma inadvertida confusão entre a utilização do verbo "querer" e o "optar" ou "escolher".
Na verdade,os maus políticos - os de hoje, os de ontem e até mesmo os de amanhã - foram e serão eleitos pelos portugueses. E se a maioria dos eleitores portugueses elegeram os actuais políticos, os que nos conduziram às actuais políticas, isso deve-se não só à liberdade de escolha dos eleitores, mas também à interpretação e avaliação que fazem das mensagens políticas e do seu contacto com as consequências práticas e reais dessas políticas.

Não vale a pena entrar em grandes considerações e análises de dados sobre aquele que tem sido o envolvimento dos eleitores na vida política da terceira república(1) em Portugal, mas é do conhecimento geral - sustentado por inúmeros trabalhos e ensaios - o aumento progressivo do distanciamento entre governados e governantes. No entanto, se é correcto dizer-se que o abstencionismo cria todas as condições para uma escolha feita apenas por alguns com impacto em todos, já não é verdade que seja o abstencionismo responsável por querer melhores ou piores políticos, por querer melhores ou piores políticas. Não estamos perante uma dicotomia de responsabilidade ou vontade entre votantes e não votantes. Muito provavelmente estes últimos não querem nada e o que os primeiros querem é-lhes indiferente. Muito provavelmente estes últimos pura e simplesmente deixaram de acreditar e por isso entendem abdicar da sua escolha condicionada.

É que, na verdade, se tomarmos atenção àquilo que as pessoas dizem nos cafés, nas ruas, nas associações, nos transportes públicos, enfim, no país real, facilmente no apercebemos que os eleitores querem, de facto, melhores políticos e querem, de facto, melhores políticas. Mais do que querer, precisam de melhores políticas! Mas no momento em que poderiam levar por diante essa sua pretensão vêem-se confrontados com um acto de opção em listas de políticos, bons e maus, previamente seleccionados por aqueles que detém essa exclusividade: os partidos políticos.

Sempre fui um defensor da existência de partidos políticos - para mim é inconcebível a existência de Democracia sem estes - e advoguei (e continuo a advogar) a participação dos cidadãos na vida activa destas organizações. Mas está na altura dos partidos políticos perceberem que não temos maus políticos porque os portugueses querem. Se os temos, é porque foram as opções impostas aos portugueses através de listas elaboradas pelos próprios partidos. Está na altura dos partidos políticos assumirem que têm vindo a falhar naquele que deveria ser o seu papel na sociedade, que não conseguem passar uma verdadeira e clara mensagem de esperança, que não conseguem voltar a chamar a si o cidadão. Está na altura dos partidos políticos se reinventarem, de encontrarem novos caminhos e formas de responder às reais necessidades dos cidadãos.
Provavelmente, o primeiro passo para querer melhor terá mesmo que começar no interior dos partidos políticos - e neste ponto há que reconhecer alguns passos já dados nesse sentido tanto pelo Partido Socialista como pelo LIVRE/Tempo de Avançar.



(1) Sem entrar numa outra discussão, assumo a expressão mesmo reconhecendo a existência de uma divergência quanto a esta classificação dos últimos 41 anos da democracia portuguesa.

23/05/2015

De "Equus ferus caballus" para "Equus africanus asinus"

Diariamente leio alguns textos, uns bons e outros maus, uns de onde consigo retirar conhecimento e outros que me levam ao arrependimento... de os ter lido!
As estes últimos a melhor "resposta" a dar é esquecer que os li e ignorar. Mas há uns que, de tão maus que são, isso se torna impossível de conseguir. E é sobre um desses que agora escrevo. Será, porventura, o texto mais ignorante, deturpado e falacioso que alguma vez li.

O texto em questão é do da "sra." (porque "Prof." é título que se atribui a quem tem capacidade e competência para ensinar) Maria Fátima Bonifácio, sra. que lá vai aparecendo quando é preciso bajular a direita, disparar umas alarvidades contra a esquerda, ou quando não há mais ninguém disponível para se prestar ao ridículo, e que é impresso hoje (22.05.15) no jornal Público com o titulo «Um "transportador de desassossegos"».

No referido texto, a dita sra. historiadora (ou estoriadora?!) tenta argumentar sobre a candidatura do Prof. (este sim, tem direito a título) Sampaio da Nóvoa. Mas deste texto, ignorando o histórico pensamento da sra. Bonifácio e a sua elevada capacidade argumentativa sobre qualquer que seja o assunto (veja-se que até sobre leis do tabaco se lhe encontra pensamento filosófico e argucia), depois de lido poder-se-ia retirar uma de 3 conclusões:
1 - o texto resulta da ignorância da sra. quanto ao cargo a que Sampaio da Nóvoa se está a candidatar;
2 - o texto resulta da incapacidade de interpretação por parte da sra. do conteúdo das entrevistas dadas por Sampaio da Nóvoa (a jornais e televisões);
3 - o texto deturpa intencionalmente a verdade e pretende construir uma imagem errada da candidatura e das ideias já apresentadas por Sampaio da Nóvoa.

A sra. Bonifácio escreve «É facto que jura renegociar a dívida “até ao limite do possível”, mas ignora por onde passam o limite e o possível.» - o que as pessoas informadas e sérias sabem e compreendem - a sra. M. Fátima Bonifácio não - é que quem renegoceia dívidas ou o que quer que seja em matéria executiva são os Governos. E a sra. Bonifácio sabe que esta "jura" que tenta atribuir a Sampaio da Nóvoa nem sequer existe na entrevista que cita.

A sra. Bonifácio escreve que «Nóvoa é o homem providencial para abraçar esse combate e demonstrar ao mundo “que as políticas de austeridade [não] são uma inevitabilidade”.» - ainda que assim fosse, se Nóvoa quisesse demonstrar alguma coisa não seria ao «mundo» mas sim à Europa, mas a sra. Bonifácio não conseguiu interpretar a frase «Se nós acreditássemos que esta Europa não vai mudar, e que as políticas de austeridade são uma inevitabilidade ficávamos em casa a protestar contra qualquer coisa»

Sobre a alusão de Sampaio da Nóvoa em que o voto no «arco da governação» implica que 20% dos portugueses fica à partida excluído, a sra. Bonifácio escreve «O remédio, como se adivinha, está em puxar o arco para a esquerda até incluir o Bloco e o PC. Mas, nesta hipótese humana e generosa, ficam excluídos 80% dos portugueses.» - revelando, à partida, enorme dificuldade na matemática, a sra. Bonifácio considera que a esquerda é representada apenas por dois partidos em Portugal, que no PS, por exemplo, não há votantes de esquerda ou, em última análise, tal presunção não passa de um enorme desejo que a sua direita represente 80% dos portugueses.

A sra. Bonifácio, incompreensivelmente, classifica PCP e BE como partidos da «extrema-esquerda» - teria evitado mais um atestado da sua ignorância se tivesse lido alguns dos trabalhos feitos por colegas seus tanto na Universidade para a qual trabalha como do ICS onde se diz investigadora.

A sra. Bonifácio, referindo-se à falta de apoios de estruturas partidárias, escreve «A sua candidatura, que ainda não recebeu o apoio declarado de nenhuma dessas agremiações, é “pessoal”.» - mesmo que conseguíssemos ignorar que se diz historiadora e não se lhe exigindo que conheça a Constituição da República Portuguesa, perguntando a alguns colegas seus, a sra. Bonifácio facilmente teria percebido que as candidaturas à Presidência da República são isso mesmo: pessoais («São elegíveis os cidadãos eleitores, portugueses de origem, maiores de 35 anos.» Artigo 122.º da CRP).

Mas de entre tantos disparates (há ainda mais alguns naquela mais de meia página de jornal) há aquele que, para mim é a "cereja no cimo do bolo". Escreve a sra. Bonifácio: «Inquirido, há dias, se se sentia mais próximo do Partido Socialista ou do Partido Comunista, o candidato à Presidência da República respondeu: “Não sei.” Está tudo dito. Politicamente, António Nóvoa não sabe o que é, nem quem é.»
Mas para que cada um possa tirar as suas próprias conclusões sobre se esta "tirada" é reflexo de ignorância, deficiência na compreensão e interpretação, problema auditivo, mitomania ou outra qualquer característica da sra. Bonifácio aqui fica a transcrição da entrevista dada à RTP em 6 de Maio 2015:
«Vitor Gonçalves: ... e olhando para o nosso espectro partidário, o senhor sente-se mais próximo do partido socialista do que do partido comunista, por exemplo?

Sampaio da Nóvoa: eu não sou capaz de lhe responder dessa maneira.
VG: não é capaz?
SN: não.
VG: então deixe-me concretizar-lhe a pergunta de outro modo: nas eleições, em eleições anteriores o senhor alguma vez votou, por exemplo, no partido comunista ou... ou não?
SN: eu não vou divulgar em nenhuma circunstância as votações que fiz e em quem em momentos anteriores.»

Porque a sra. Bonifácio até gosta de escrever uns livros sobre história, não lhe seria difícil encontrar referências que - estivesse ela nos tempos onde se podem encontrar algumas características com as quais o seu pensamento se parece identificar - depois de escrever um texto como este, era o momento de colocar um chapéu de papel ornamentado e ficar um bom bocado de tempo virada para a parede até perceber o quão mau é aquilo que escrevinhou.
Sobre o texto da sra. Bonifácio, como ela própria escreveu: «Está tudo dito.»

27/01/2015

Grécia: um novo paradigma?

Não vale a pena discorrer sobre o que a Grécia foi e sobre a sua história ou o que representou para a Democracia(1). Ela é sobejamente conhecida, desde muito cedo a partir dos planos escolares.
Não vale a pena discorrer sobre como a Grécia está. Também o seu estado actual é do conhecimento geral (níveis de desemprego incomportáveis, um sistema de saúde a rebentar pelas costuras, a economia desfeita, fome... desespero!) mesmo que a muitos governantes e a uma "Europa unida na diversidade" interessasse esconder esse cenário de devastação social e económica. Lembremo-nos dos vários "nós não somos a Grécia". Antes, e agora outra vez.
Mas valerá a pena falar sobre o futuro da Grécia?... Não sei se tal será possível.

Sem qualquer sombra de dúvida que o eleitorado grego optou por um governo liderado por um partido (ou uma manta de retalhos de vários partidos resultante de dissidências de todos os espectros políticos) de esquerda radical como forma de protesto - contrariamente ao que muitos disseram e tentaram que outros assimilassem, não estamos a falar de um partido de extrema-esquerda.
A eleição do Syriza não é mais do que o resultado do cansaço dos gregos pelas políticas de austeridade impostas pela União Europeia e pelo próprio governo (que, tal como cá, obedece a um plano estritamente nacional assente numa linha ideológica, mas que depois justifica como a necessidade de corresponder ao "mercados", aos "credores" ou mesmo aos "nossos parceiros"). Políticas com os resultados que todos conhecemos.
Portanto, o eleitorado não escolheu um partido com base no seu programa político (uma situação recorrente), mas sim num conjunto de chavões e num discurso que foi sendo alterado ao longo do tempo. A mesma razão que levou à ascensão do partido de extrema-direita - neonazi -, o Aurora Dourada, como a 3.ª força política da Grécia(2).

Da esquerda à direita, da ciência política à economia, vi extremarem-se posições: "a Europa vai mudar", "acabou a austeridade", "a seguir à Grécia serão outros a impor a sua voz", "a Grécia tem de cumprir se não sai da UE", "a Grécia ficará pior", etc., etc.

A única coisa podemos assegurar é que esta eleição é como uma pedrada no charco: vai fazer ondas, mas ninguém sabe se serão suficientemente grandes para fazer transbordar a água!
No entanto, este acto eleitoral grego deve, tem!, de soar como um alarme para os governantes dos países do norte e centro da Europa. Vai para lá da evidência económica de que as políticas de austeridade falharam. É, agora, se é que ela faltasse, a evidência social e política do falhanço da orientação europeia de cortes cegos, custe o que custar. Já não estamos na fase de subidas ou descidas nas sondagens, ou aumento ou decréscimo no número de votos. Está provado que a radicalização do discurso ganha eleições - tanto à esquerda como à direita - e até forma governos, como o que agora foi eleito na Grécia: um governo de coligação da esquerda radical como a estrema-direita!

Poderíamos dizer que agora, o levantar da voz da Grécia no plano da UE iria conduzir a alterações profundas. Não estou certo disso.
É que o quadro institucional e orgânico da UE não mudou. É que, ao contrário do que algumas pessoas julgam (ainda no dia 27 de Janeiro, na TVI24, José Manuel Fernandes mostrava a sua imensa ignorância neste campo), a posição dos "pequenos" países da UE - e nova dificuldade se coloca no consenso em torno da definição de "pequenos países" - não está "sobre-valorizada" no Conselho da UE ou no Conselho Europeu, nem o Parlamento Europeu dispõe de um peso tão grande nas políticas europeias, muito menos nas financeiras e económicas. Dizer o contrário é mostrar um desconhecimento de como funciona a UE e o sistema de alianças nestas instituições.

O que vai ser o futuro da Grécia, não sei. Ninguém sabe. E esse é que vai ser o grande desafio para os gregos. A minha esperança, para a Grécia, para Portugal e para a Europa, é que o Syriza saiba encontrar o seu caminho, ser coerente, saiba contrariar a austeridade, defender os mais desprotegidos e acabar com as desigualdades. Porque se o conseguir, aí sim, reconquistar-se-á um dos mais preciosos bens da Democracia: a crença na política, a confiança dos governados nos governantes. Aí sim, as pessoas acreditarão!




(1) Não obstante a diferença do conceito de Democracia na antiga Grécia importa salientar o enorme contributo que esta deu para a Democracia tal como a entendemos nos dias de hoje.

(2) Não deixa de se verificar aqui um paradoxo a quando de campanhas (maioritariamente nas redes sociais) com a evocação da história da Alemanha nazi como um ataque à actual hegemonia política alemã e simultaneamente se verifica o crescimento eleitoral da força partidária que advoga o retorno a esse nacionalismo nazi.

26/12/2014

O Álvaro sem Medo

Há uns dias comprei um livro chamado "Wit - ensaios humorísticos" de Robert Benchley e após ter lido 3 dos "ensaios" daquele conjunto fiquei, sinceramente, a duvidar da existência, na minha pessoa, de sentido de humor. Felizmente, uma oferta 'literária' neste Natal fez-me recuar nessa minha dúvida.
Numa livraria, passaria ao lado deste livro e não perderia um segundo sequer a ler a contracapa. Graças a esta oferta, percebo hoje o que estaria a perder: largos minutos de boa disposição.

Se há uns dias atrás me dissessem que estaria a ler o livro "Reformar sem medo - Um independente no Governo de Portugal" de Álvaro Santos Pereira eu não acredita e, provavelmente, desataria a rir. O que é um facto é que o estou mesmo a ler e admito que estou a gostar. Não pela assertividade que ele contém (nenhuma!) mas sim pelo optimismo e auto-elogio do autor.

Com o Capítulo 1 lido, a apresentação do autor e dos seu trabalho, o leitor fica com a clara ideia de que o livro se deveria chamar "As aventuras de Álvaro sem Medo - Um independente no Governo de Portugal"*.
Álvaro apresenta-se aqui como uma personagem, pela sua independência, em espírito de missão numa espécie de Zorro com tiques de Calimero. Sem a indumentária característica do justiceiro ou o seu cavalo Tornado (mas mostrou-se, na altura, disposto a reduzir o número e a cilindrada dos veículos do Ministério), Álvaro relata que lutou contra lobís e interesses instalados dentro do Ministério da Economia e do Estado e, por isso, foi alvo de represálias e destrato - e eis que o Zorro se confunde com o Calimero. Foi graças a ele, diz-nos 'Álvaro sem Medo', que "o maior Ministério desde o 25 de Abril de 1974" (faz questão de o lembrar, pelo menos, 3 vezes ao longo deste primeiro Capítulo) implementou as maiores "reformas estruturais" alguma vez vistas em Portugal (outra repetição constante ao longo destas páginas). Mas mesmo depois de ter deixado de ser Ministro, nestas páginas, Álvaro mantém a mesma coerência de quando exercia o cargo: enche o peito para reclamar a si a autoria e implementação de "reformas estruturais" sem que conseguisse ou consiga concretizar uma única que seja.

Neste Capítulo, onde apenas dá uma curta alfinetada no CDS e no seu líder, Paulo Portas, relativamente ao aumento da austeridade, Álvaro apenas concretiza "reformas estruturais" nas quais, diz, não ter responsabilidade, por falta de peso político: o aumento do IVA da restauração, a saída da AICEP do Ministério da Economia, "a enorme subida de impostos" ou a incapacidade de avançar com a redução do IRC em 2012. Mas quando arrisca entrar nas suas "reformas estruturais" eis que parece que estas se concretizam em revolucionar a "máquina burocrática do Estado" (pergunto-me se alguma vez terá ouvido falar de um programa chamado SIMPLEX ou mesmo no 'SIMPLEX II' que foi anunciado pelo seu ex-colega de Governo, Paulo Portas), acabar com as golden shares (veja-se o resultado que teve no caso da PT), ao inicio das privatizações (vejam-se as consequências nos casos da EDP, REN ou ANA, apenas como exemplos), a aposta "no sector mineiro em Portugal" (para onde se propagaram e multiplicaram as minas em Portugal, exportação mineira ou mesmo o aumento de empregos neste sector??) ou, veja-se o que se descobre pela caneta de Álvaro, o "relançar o sistema dual e de aprendizagem". Parece assim ficar evidente que, para além de uma propulsão destruidora das empresas que traziam para o Estado rendimentos e de uma visão muito redutora do conceito e definição de 'estrutural', pelo próprio, ficamos a saber que é 'Álvaro sem Medo"  o mentor de algumas das políticas de Crato "o implodidor".

Há, no entanto, um ponto neste Capítulo onde concordo integralmente com Álvaro: a competência para o exercício de qualquer cargo ou função não se obtém através de títulos académicos!

Uma coisa é certa: esta leitura, definitivamente, promete!




* - uma clara alusão à obra "As aventuras João sem Medo" de José Gomes Ferreira

04/12/2014

São Bento às cambalhotas

Fonte: Google Maps
Este poderia ser mais um texto sobre política. Não o é... bem, na verdade, e bem vistas as coisas, acaba por ser! A chamada "politica local".
Poderia ser sobre as cambalhotas que se dão em "São Bento", nome alternativo quando se alude à Assembleia da República, ou às decisões que dela saem e que fazem com que nós, cidadãos (ou "cidadões" segundo o Presidente da República), andemos às cambalhotas. Mas não. É mesmo sobre a Rua de São Bento em Lisboa.

Rua de São Bento onde se torna difícil compreender a gestão urbana, rodoviária e de segurança e, por vezes, até mesmo diferenciar os animais racionais dos irracionais. Poder-se-ia pensar que a Rua de São Bento é uma rua nobre por, quase no seu fim (e a olharmos vista a partir do Largo do Rato), comporta um importante imóvel patrimonial nacional que assume a honrosa função de ser a "Casa da Democracia" e, talvez por isso, ser percorrida por largas dezenas (ou centenas) de turistas nacionais e estrangeiros diariamente, seja em autocarros panorâmicos, seja em táxis, nos "tuk-tuks" e similares, ou mesmo a pé. Quem conhece esta importante rua conhecerá, seguramente, este facto.
Um pormenor muito importante a reter nesta fase do texto é que, adjacente à parte nova da casa da Democracia existe um pequena esquadra de polícia... muito discreta, mas está lá.

Pois comecemos pela perspectiva do condutor. Atente-se que falamos de uma Rua e não de uma Avenida. Se só esta referência não chegasse, poderíamos dizer que esta é uma rua estreita para o actual volume de circulação rodoviária. Em certas zonas do troço, dois autocarros cruzam-se com imensa dificuldade... algumas vezes, um deles, por segurança (de quem?), acaba mesmo por ter que galgar o passeio. Mas se noutros troços da rua esta situação poderia ser evitada pelo simples facto da estrada alargar, tal não se verifica por causa de veículos (mal) estacionados na estrada, em zonas proibidas, em cima de passeios, passadeiras e, também já os vi, em segunda fila!... e onde o problema ocorre com maior incidência?... ironia do destino: em frente à dita esquadra de polícia!

Mas se da perspectiva de um condutor descer ou subir a Rua de São Bento não é uma tarefa fácil, na condição de peão a coisa não melhora. Ignoremos os carros estacionados em cima dos passeios que antes referi, nas paragens dos autocarros e mesmo em cima das passadeiras. Se são um problema para o peão comum, imaginem os obstáculos que constituem para pessoas com mobilidade reduzida ou dificultada (apenas como referência, este "espectáculo" tem continuação na Av. D. Carlos I, onde se situa a ACAPO!).
Caminhar nos passeios da Rua de São Bento são uma autêntica aventura. Isto é, o peão é obrigado a uma gincana para se desviar dos buracos na calçada, dos andaimes e taipais de obras (alguns de anos!) e de 'presentes' fecais deixados pelos animais (desta vez refiro-me aos cães... não aos outros animais que os deixam defecar no meio do passeio e optam por lá deixar ficar o resultado da necessidade fisiológica). Sobre estes últimos 'obstáculos' poderíamos julgar que, por razões óbvias, se concentrariam nas imediações do "Hospital Veterinário" da zona, mas infelizmente não. Estão espalhados por toda a rua. De cima a baixo! Mas se a situação já obriga a este ziguezague nos passeios, por si só já bastante estreitos, acrescente-se a tudo isto um comboio de caixotes do lixo ao longo da rua, daqueles que as pessoas guardam nas escadas!

Mas a obras constantes nos edifícios, se são boas para fazer mexer a economia, tornam-se um problema para os transeuntes, principalmente quando se prolongam demasiado no tempo. Muito perto de uma hospedaria que existe nesta rua, perto do Largo do Rato, a recuperação de um edifício que está a ser levada a cabo, depois de muito tempo com fitas de plástico vermelhas e brancas a vedar parte do passeio, ocupa agora todo o passeio e obriga, através de duas passadeiras provisórias (amarelas) o peão a atravessar a estrada para o outro lado. Até aqui, tudo bem! O problema é que o sinal vertical de indicação de passadeira, em ambas, só existe para os condutores que descem a rua. Os que seguem no sentido ascendente, não têm sinal vertical e, muitos vezes, ignoram as passadeiras (mal) pintadas. Mais em baixo, junto a um taipal com alguns anos e que apenas delimita a zona de uma estrutura de ferro que segura um edifício - taipal esse que não só ocupa o passeio como parte da estrada - também existem duas passadeiras. A primeira, no sentido de quem desce a rua, devidamente sinalizada em ambos os sentidos e de carácter definitivo (branca). A segunda, mais a baixo, apesar de um sinal vertical no sentido descendente (no sentido ascendente esse sinal não existe, como nas outras)... não existe!... O sinal está lá, a passadeira não! - Será a ausência de sinais num dos sentidos sinal dos tempos ("cortes na despesa") ou que os manda colocar ignora que a rua tem dois sentidos?

... E assim, lá se vai por São Bento às cambalhotas.

Infelizmente, este não é um 'retrato' exclusivo da Rua de São Bento. Este é o retrato da crescente falta de civismo, da falta de educação e, acima de tudo, da falta de respeito pelo outro. Seja na "utilização", seja na "gestão". Quando poderíamos julgar que a sociedade em que vivemos já se encontraria num estádio avançado de evolução, estas pequenas grandes coisas fazem-nos pôr os pés na terra e perceber que, afinal, o ser humano ainda está numa fase muito primária da sua inteligência!

29/09/2014

O Secretário-Geral e o Líder

Este foi o argumento que sustentou toda uma situação que o Partido Socialista dispensava.

Depois das eleições de 25 de Maio de 2014 para o Parlamento Europeu, onde uma parte significativa dos comentadores, jornalistas e cientistas políticos perceberam que não correram de feição para o PS, ouvimos e vimos dirigentes, neste caso António José Seguro, reclamar para si e para o PS uma "grande vitória" (que Francisco Assis disse que nunca ter sido reclamado mesmo quando escrito no site do próprio PS!?) mas na qual, afinal, o PS apenas não terá conseguido capitalizar o descontentamento das pessoas com a política, e que, mais tarde, voltaria a ser a "maior derrota desde o 25 de Abril" que o "PS infligiu à direita unida".

No meio de tantos "zigue-zagues", a direcção nacional e o próprio Secretário-Geral do PS, nessa noite e nas semanas que se seguiram, teimosamente se recusaram a reconhecer o que estava aos olhos de todos. Entraram numa espécie de estado de negação.

Mesmo depois da disponibilidade manifestada por António Costa para tentar inverter caminho que estava a ser imposto ao PS, António José Seguro continuou a insistir numa visão muito distante da realidade. Com base nesse imaginário, de que os militantes, e até mesmo os eleitores do PS não militantes, estariam ao seu lado, continuou a insistir na sua condição de líder: "Face à situação provocada na última semana dentro PS, não quero que restem dúvidas: sou o líder legítimo do PS e não me demito". E assim, numa espécie de fuga para a frente, numa tentativa de ganhar algum tempo e, talvez, tentar adormecer a rápida corrente de apoio que se gerou em torno de Costa (em poucas horas!), engendrou uma "solução" na qual ele não acredita.

Ora, o que António José Seguro talvez não tenha percebido, e esse o seu grande erro, é que a sua legitimidade não assentava no facto de ser "líder", mas sim no facto de ser "Secretário-Geral". O que António José Seguro não percebe, ou não percebeu, é a diferença entre "líder" e "Secretário-Geral".

No momento em que internamente algum militante se mostra disponível para assumir o cargo de Secretário-Geral, mesmo que o momento não se enquadre no calendário eleitoral do partido, e quando esse militante reúne um número significativo de apoios, como foi o caso de António Costa, o Secretário-Geral em funções, seja ele quem for, não deve temer a luta partidária e despoletar de imediato todos os mecanismos que estão ao seu alcance para deixar a democracia interna funcionar.  Mais do que isso, não deve permitir que quaisquer dúvidas quanto à liderança se possam aprofundar ou adensar no interior do partido.
António José Seguro, no cargo de Secretário-Geral, e o único com o poder resolver rapidamente este tipo de questões, julgou que era o líder do PS e recusou partir para eleições. Acreditou que o "povo", com excepção duma certa Lisboa, o confirmaria como o Primeiro-Ministro. Sim, como Primeiro-Ministro e não como candidato a tal, uma vez que desde a primeira hora, em 2011, e também em 2013, Seguro afirmara ter o seu destino traçado: "A minha ambição é de ser primeiro-ministro para poder servir Portugal".

Mas se o resultado destas primárias, ganhas expressivamente por António Costa (67,88% contra 31,65% de António José Seguro), mostra alguma coisa é que a sustentação da campanha de António José Seguro era a errada: ser-se Secretário-Geral do PS não significa ser líder ou ter o partido do seu lado; ser-se Secretário-Geral do PS não é ter o "direito" a disputar de eleições legislativas, mesmo sem fazer oposição, mesmo sem ideias ou um rumo; e, também, que a disponibilidade de António Costa, como foi usado recorrentemente, não abriu "uma crise no PS", mas sim, apresentou-se como uma solução à crise silenciosa que se vivia no interior do partido. Esta última evidência, desde cedo se tornou clara.

Mas há lições a retirar de todo este processo de sucessão mal conduzido pela direcção nacional do PS e, em particular, pelo seu Secretário-Geral.
Toda a campanha, longa e demasiadamente arrastada, para estas primárias ficou marcada por acusações pessoais e rasteiras, muitas vezes comprovadamente assente em mentiras (!), ou mesmo assente na demagogia e no populismo. Uma situação que serviu para criar divisões e roturas no interior do partido. Entre militantes de base, que muitas vezes encararam esta campanha com a emoção com que muitas vezes se acompanham os clubes desportivos, e até mesmo entre dirigentes - atente-se aos discursos dos dois candidatos, tanto o do perdedor como o do vencedor. Custa a acreditar que tamanha cisão tenda a desaparecer num curto ou médio espaço de tempo. Isto, se a hipocrisia não galgar terreno entre os militantes.

No entanto, as "primárias", abertas a não militantes, sem discutir nesta fase se acrescentaram mérito ou demérito à política, especialmente tratando-se de eleições primárias para um cargo que não existe eleitoralmente, abre espaço a perguntas para as quais não é fácil encontrar resposta.
Amanhã, imaginando que António Costa assume o cargo de Primeiro-Ministro, se por alguma razão se vê obrigado a pedir a demissão, estará o PS legitimado para apresentar um outro nome ao Presidente da República para esse cargo para formar governo, ou terá que forçosamente ir a eleições, mesmo dispondo de um excelente grupo parlamentar eleito (os únicos de facto eleitos em legislativas)?

Não obstante uma das candidaturas envolvidas nesta eleição ter tentado diferenciar os temas e os lugares próprios em cada momento para os discutir, estas eleições primárias colocam ainda mais dúvidas ao nível partidário.
Não conduzirão este tipo de eleições ao esvaziamento dos partidos, isto é, neste caso, onde o Secretário-Geral, que era também um candidato, se demitiu obrigado a uma eleição interna para esse lugar, qual será o peso da opinião ou da discussão entre os militantes? Não será a próxima eleição do Secretário-Geral apenas uma ratificação, que não pode levar em consideração a discussão entre militantes? Não é esta a abertura de um caminho para o profissionalismo da política onde os partidos só precisarão de meios (humanos) para desenvolver acções de marketing político e para a organização de actos electivos? Estarão, porventura, os militantes legitimados para contrariar uma eleição primária para candidato a Primeiro-Ministro, na eventualidade de outro candidato se apresentar à eleição do Secretário-Geral?

Apesar de muitos defenderem esta iniciativa como positiva para a democracia, não estou tão certo de que tal assim seja. Não porque tenha alguma evidência imediata do prejuízo introduzido por esta iniciativa de personificação na política, nomeadamente no cargo de Primeiro-Ministro, mas sim pelas incertezas que ela levanta para o futuro.
Mas estou certo que os muitos estudos e trabalhos académicos que surgirão no campo das Ciências Sociais, a partir desta oportunidade que se abriu, poderão dar respostas a algumas das muitas perguntas que agora se levantam.



Related Posts with Thumbnails